Quando uma empresa se aprofunda em um dos temas mais desafiadores do mundo corporativo, testa soluções, aprende, ajusta a rota e ainda é reconhecida internacionalmente por essa jornada, ouvir quem está por trás dessa experiência é uma oportunidade de aprendizado.
Foi essa a proposta do encontro promovido pela Top2You, no Rio de Janeiro, com Raphael Bozza, sócio e CHRO do iFood.
O evento, que aconteceu ontem no Instituto 12, aproximou mais de 40 líderes de RH de uma experiência real: a de uma empresa que já incorporou a inteligência artificial à operação, à cultura e à forma de pensar crescimento.
A conversa começou por um exemplo simples, mas simbólico. Bozza contou que criou um “jogo da cobrinha” usando IA, mesmo sem domínio técnico em programação.
“Há seis meses era impossível imaginar que eu conseguiria fazer um jogo. E não é que eu fiz porque eu manjo bem de tech. É que a tecnologia está tão rápida, está avançando tanto, que a gente começa os nossos treinamentos no iFood hoje com as pessoas fazendo o jogo da cobrinha”, afirmou.
O exemplo ajuda a traduzir o ponto central da palestra: a IA deixou de ser um tema restrito a áreas técnicas ou a especialistas. Ela já está nas mãos das pessoas. E, por isso, também exige outro tipo de postura das organizações.
Na abertura do encontro, Thiago Correia, CEO da Top2You, reforçou a importância de conversas como aquela para circular conhecimento e fortalecer uma comunidade de RH preparada para lidar com temas que já estão transformando a agenda das empresas.
“No centro de toda transformação, no mundo corporativo, continua a mesma pergunta: ‘Como desenvolver e potencializar a liderança?’ Isso quase sempre acontece por meio de boas conversas. Por isso, conversar com quem já trilhou um caminho que a gente quer trilhar e que já chegou lá nos ajuda a decidir melhor e executar mais rápido”, explicou.
A IA não muda só processos. Ela muda a exigência sobre as lideranças
A inteligência artificial está encurtando muitos caminhos. Mas existe uma distância que a tecnologia, sozinha, não consegue reduzir: a distância entre ter acesso à mudança e estar pronto para conduzi-la.
Se, por um lado, a IA pode ampliar a capacidade de execução, organizar informações, liberar tempo e abrir novas possibilidades, por outro, ela não substitui a experiência, não constrói sozinha a coragem para tomar decisões difíceis e não prepara lideranças para lidar com ambiguidade, pressão e mudanças que ainda não têm manual.
“O que funciona nesse momento é colocar a mão na massa”, disse Bozza.
No iFood, essa lógica ganhou escala.
Segundo o executivo, a empresa reuniu líderes em treinamentos aos fins de semana para aprender na prática. “Reuni 60 líderes no sábado, 60 líderes no domingo, e a gente treinou e aprendeu colocando a mão na massa. Porque tem um simbolismo: é a liderança correndo atrás. Não é eu falando ‘façam’. É: estamos fazendo.”
Da curiosidade ao impacto real no trabalho
Um dos exemplos apresentados por Bozza foi o Agilito, agente de IA hoje amplamente usado no iFood. Antes, um executivo comercial levava cerca de quatro horas para construir uma análise para uma conversa com um parceiro. Com o Agilito, esse trabalho passou a levar de 10 a 15 minutos.
O impacto não está apenas na economia de tempo. Está na mudança do tipo de trabalho que as pessoas passam a fazer. Ao tirar tarefas repetitivas e operacionais do caminho, a IA abre espaço para análises melhores, conversas mais qualificadas e decisões mais rápidas.
Em People, Bozza contou que a lógica também já aparece no dia a dia. Antes de uma reunião com uma liderança, por exemplo, um BP pode pedir que a IA organize informações e gere um relatório para a conversa. O trabalho que antes poderia consumir uma ou duas horas passa a ser acelerado com apoio da tecnologia.
Essa mudança já se traduz em escala. No ano passado, o iFood estabeleceu a meta de ter um agente para cada um dos cerca de 8 mil Foodlovers, como são chamados os colaboradores da empresa. No fim, foram construídos 27 mil agentes.
O reconhecimento internacional também veio recentemente, quando o iFood venceu 3 das 4 categorias do Prosus AI Talent, realizado em Shenzhen, na China.
Na premiação, o grande destaque foi o Echo, que gera mensagens hiperpersonalizadas e envia pushs únicos todos os dias. Os resultados mostram que o agente já contribui para gerar mais de 75% de tráfego e mais de 40% de pedidos após o clique nas comunicações.
O RH diante de uma mudança que não espera
Ao longo da roda de conversa, Bozza trouxe provocações importantes para as áreas de Pessoas.
A IA, segundo ele, escancara problemas que antes podiam ficar escondidos na operação. Se um processo está mal mapeado, por exemplo, o agente ou a skill serão mal direcionados. Por isso, a transformação exige mais do que domínio de ferramenta. Exige clareza sobre como o trabalho acontece, onde estão as decisões e quais etapas realmente geram valor.
Outro ponto sensível está na entrada de profissionais no mercado. Ele destacou que já é possível perceber uma redução relevante de vagas júnior em alguns contextos. O desafio é que esses profissionais são o pipeline de liderança e especialização das empresas para os próximos cinco ou dez anos.
A discussão, portanto, não é apenas sobre produtividade. É sobre o futuro do trabalho, formação de talentos e responsabilidade organizacional.
Para o RH, a provocação é direta. “A gente cria mais barreiras do que o negócio pede, muitas vezes. E com tudo que está rolando em IA, se a gente for lento agora, o trator vai passar na nossa área de novo. É o momento de sermos muito rápidos em testar, em não esperar que tudo esteja perfeito para agir”, defendeu.
A fala trouxe uma camada importante para a discussão: quando a IA entrou no jogo, o RH não perdeu relevância. Ao contrário, ganhou uma responsabilidade ainda maior.
Agora, cabe à área ajudar a organização a fazer perguntas melhores sobre uso, impacto, ética, desenvolvimento, novas competências e prontidão das lideranças.
Mentoria como infraestrutura para um mundo que não espera
A relação entre Bozza, iFood e Top2You não nasceu neste encontro.
O executivo já é parceiro da Top2You como mentor do RH do Futuro, programa de mentoria intercompany que reúne CHROs de grandes empresas para acelerar o desenvolvimento de talentos de RH. Com histórico de três edições bem-sucedidas, já participaram do programa empresas como Vale, Vivo, Lojas Renner, Bradesco, Petrobras, Unilever, Cielo, Danone e Gerdau.
Essa conexão traduz uma crença importante da Top2You: em um mundo do trabalho que muda rápido demais para depender apenas de trilhas tradicionais, mentoria não pode ser tratada como uma ação pontual. Ela precisa funcionar como parte de uma infraestrutura de desenvolvimento para líderes que precisam aprender, decidir e agir em cenários cada vez mais complexos.
É por isso que a Top2You quer, cada vez mais, aproximar RHs de experiências reais, provocar conversas de alto nível e criar pontes com quem está conduzindo mudanças.
A conversa com Raphael Bozza reforçou que nenhuma transformação se sustenta apenas pela força da tecnologia. O que apoia a mudança é a capacidade das pessoas de trocar experiências, refletir, se inspirar, aprender, decidir e liderar em novos contextos. E esse caminho fica um pouco mais leve quando se tem mentores. Bozza resume: “É uma mudança que não vai ser fácil. Tem um monte de decisões difíceis que a gente já começa a ter. Mas para quem é de RH, é hora de assumir a responsabilidade da nossa cadeira, da nossa função no dia a dia. Agora é a hora.”



