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Mentores Fora de Série: Kika Ricciardi 

Por top2you

Cursar Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) sempre foi um objetivo estratégico de Kika Ricciardi. Excelente aluna do Dante Alighieri, tradicional colégio de São Paulo, ela viu na graduação na reputada faculdade a chance de ocupar espaços profissionais de destaque praticamente fechados para as mulheres no final dos anos 1970.

O desejo por ser independente e ter protagonismo feminino nasceu com a sua mãe, que se separou aos 36 anos – algo muito incomum naquela época. Para cuidar de Kika e das outras duas filhas, ela voltou à faculdade para cursar Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e trabalhar como advogada.

Descendente de italianos que migraram para o Brasil após a 1a Guerra Mundial, ela cresceu em uma família que se manteve unida e ligada às suas origens. “Onde o sentar à mesa vai muito além da gastronomia”, explica. Isso trouxe a Kika um interesse especial por trocas e vínculos humanos, algo que mantém ao longo de toda a sua vida e que contribui para as suas mentorias.

Depois de uma carreira de três décadas no mercado financeiro, hoje ela atua em conselhos empresariais (de administração e consultivos) e como investidora anjo.

Os bisavós de Kika não vieram ao Brasil como imigrantes para trabalhar na agricultura, mas para impulsionar a cultura com a industrialização em São Paulo na primeira metade do século 20. Um dos seus bisavôs maternos era maestro e hoje dá nome a uma rua paulistana, a Rua Maestro Joaquim Capocchi. O outro bisavô materno veio a convite do Liceu de Artes e Ofícios para disseminar o estilo renascentista de mobiliário, resultante da madeira maciça escura entalhada combinada ao couro. “Migraram para trazer a cultura do velho mundo para o Brasil”, conta. Assim, eles prosperaram e Kika cresceu no Alto de Pinheiros e nos Jardins, bairros da elite paulistana. 

Uma carreira em três temporadas

A carreira de Kika começa com a Themag Engenharia, empresa responsável por projetos de geotecnia (técnica que estuda o comportamento do solo e das rochas). O Brasil vivia a primeira década perdida da economia e era muito difícil conseguir uma colocação no mercado de trabalho. “Foi a época dos engenheiros que viraram suco”, conta. Mas Kika conseguiu uma vaga e trabalhou três anos na empresa.

A experiência, no entanto, mostrou que ela queria algo diferente. “Os horizontes que eu buscava para mim eram mais amplos do que a engenharia traria naquele momento”, diz. Enquanto estudava francês na Aliança Francesa, reencontrou um colega da Poli no curso, que a convenceu de participar do processo de trainee do Citibank. Foi escolhida.

Começava aí a sua segunda e mais longa temporada profissional, a sua carreira no mercado financeiro, trilhada toda em instituições financeiras internacionais. Foram 30 anos no total, dos quais 27 foram no Citibank, e os últimos três no Deutsche Bank, tendo atuado como managing director nos dois bancos. “Foi uma temporada em instituições globais, com um horizonte de pluralidade cultural e riqueza de trocas muito grande”, afirma.

Isso se conecta à terceira fase profissional de Kika: atuação como mentora. “É um espaço de troca muito grande, onde mentor e mentorado se combinam, se incentivam e se provocam”, explica. Além da experiência no mercado financeiro, ela passou a atuar em governança, como conselheira de empresas, e também se tornou investidora anjo. “É uma atuação plural, com uma série de chapéus que se conectam e se nutrem, numa trilha enriquecedora que, se Deus quiser, vai durar muito tempo”, diz. 

Em busca do equilíbrio

Muitas das pessoas que procuram Kika para mentorias são mulheres. Ela é uma referência profissional que conseguiu conciliar carreira e família, que é algo não negociável. “Minha família sempre veio em primeiro lugar. Quando fui cobrada a abrir mão disso, preferi mudar de instituição”, lembra.

Ela tem dois filhos e foi casada por 35 anos. Dá dicas de como alcançar um bom equilíbrio entre as esferas pessoal e profissional, que com o novo modelo de trabalho híbrido demandam ainda mais adaptações em ambas as agendas.

Em suas mentorias, Kika busca um equilíbrio entre o conhecimento empírico que acumulou em sua carreira e o instinto para ajudar os profissionais. No início da sessão, ela busca conhecer a pessoa. Assim, é possível quebrar o gelo para ter uma conexão real com quem está fazendo a mentoria, promovendo maior sintonia e facilitando o trabalho conjunto. “É o mesmo modus operandi no qual a inteligência artificial generativa se baseia: depende muito mais da qualidade das suas perguntas para você ter qualidade nas respostas do que o contrário”, destaca. 

Mentoria inesquecível

Uma mentoria que marcou Kika foi feita com uma engenheira civil, de cerca de 30 anos, que trabalha em uma construtora em Sorocaba, no interior de São Paulo. Ela almejava preparar-se para comandar a empresa no futuro e escolheu a mentoria como uma ferramenta para alcançar esse objetivo. As duas fizeram um processo estruturado, com metodologia, que levou seis meses. Depois que terminou, a mentorada foi promovida a CEO e engravidou logo em seguida. “Ela floresceu enquanto mulher e profissional”, diz.