Quando Margareth Cardoso, filha de uma artesã, contou à sua mãe sobre o seu plano de carreira, o seu desejo era estudar para se tornar psicóloga, ela ouviu uma resposta incentivadora. Enquanto muitos diziam que psicologia “não é coisa para pobre” a mãe, que precisou lutar muito para ganhar a vida, sempre encorajou a filha, dizendo que, se era o seu sonho, é isso que precisava fazer. “As minhas decisões profissionais sempre levaram isso em conta”, reflete.
Apesar das dificuldades, Margareth não desistiu da sua escolha profissional, mas precisou se adaptar e fazer concessões. Embora a formação exigisse o aprendizado clássico em clínica, ela tinha o desejo de atuar na área de recursos humanos dentro das empresas e transformar a vida das pessoas. “Na época, eu precisava conseguir um emprego rapidamente, e o recrutamento e seleção abriu caminho”, lembra.
Focada desde o início, ela se identificou com a área e, com dedicação, construiu uma carreira de destaque, atingindo cargos de diretoria em empresas de diversos setores. Hoje atua como mentora e consultora, especializada no desenvolvimento de líderes.
O começo
Margareth iniciou sua jornada profissional ainda na graduação em Psicologia pela Faculdade de Humanidades Pedro II, quando foi contratada para atuar em recrutamento e seleção do Banco Fonte, no Rio de Janeiro, em 1994. Logo veio o primeiro grande desafio: ela seria demitida, mas antes precisaria ajudar a dispensar 60% dos colaboradores, já que a empresa se mudaria para São Paulo.
Na sequência, acabou indo para São Paulo a convite da ELF Lubrificantes, com a missão de recrutar todos os funcionários da operação brasileira e estruturar do zero o departamento de recursos humanos da companhia. No final dos anos 1990, teve passagens pelo hotel Everest Rio e pela Atlas Schindler, empresa de elevadores. Até que um novo capítulo se abriu em sua carreira, com a entrada na British Petroleum, em 2000.
Nova fase
Durante os nove anos em que esteve na BP – muitos deles como diretora para a América do Sul –, Margareth amadureceu profissionalmente e ampliou sua visão sobre a gestão de pessoas em empresas globais.
Ao deixar a companhia, passou rapidamente pela agência de publicidade AlmapBBDO e pela Castrol, antes de fazer a transição mais importante de sua trajetória, em 2012, assumindo como diretora da Genpact, empresa global de serviços e tecnologia.
Durante quase cinco anos, ocupou diversas posições, coordenando equipes em toda a América Latina. Liderou projetos em escala continental, mantendo interlocução constante com times globais e se aprofundando em práticas de transformação cultural.
Sua experiência mais recente no mercado, até 2018, foi também como diretora de RH LATAM para a Biogen, uma empresa biofarmacêutica.
Formando líderes
A partir desse momento, Margareth, então, resolveu se dedicar à mentoria de lideranças. Seu método é escutar as experiências individuais do profissional e tentar compreender como ele pode se desenvolver dentro do ecossistema da empresa. “Falo muito sobre como conseguir patrocinadores para sua carreira: fazer-se conhecer na estrutura para conseguir crescer”, diz.
Ela também gosta de trazer para os mentorados uma provocação sobre estar sempre pronto para trocar ideias com pessoas importantes na empresa. “Se você tivesse 10 segundos no elevador para falar com o presidente da companhia, o que diria?”, questiona. Para ela, é importante ter esse tipo de raciocínio estruturado para conseguir sempre falar as coisas certas para pessoas que podem ter influência na carreira.
Outro ponto recorrente em suas mentorias é o desenvolvimento de habilidades-chave. “É importante melhorar naquilo em que você já é bom, sem deixar que os pontos fracos te atrapalhem. É possível ser um ótimo diretor de RH e não saber nada de Excel, mas, quando precisar fazer uma planilha, é preciso se virar ou encontrar alguém que possa fazer para você”, afirma.
Mentoria inesquecível
Margareth se recorda de uma mentoria recente de um gestor que ia muito bem na carreira, com destaque especial para a sua atuação em desenvolvimento de pessoas. “Mas ele chegou dizendo que estava estagnado e queria mudar de carreira. Queria cursar Psicologia. E eu disse: ‘Você leva muito jeito, mas são cinco anos de faculdade. Tem certeza de que você quer ser psicólogo?’”, lembra. Na mentoria, eles pensaram juntos o projeto de vida, colocando no papel onde ele gostaria de estar em dez anos. Feito isso, ficou claro, conta Margareth, que ele não precisava fazer outra graduação. “Ele precisava de alguma formação que o ajudasse a compreender comportamento humano, não necessariamente psicologia”, diz. A mentoria deixou claro como, algumas vezes, as pessoas não conseguem enxergar novas opções. “Meu mentorado saiu da sessão com uma visão prática dos passos seguintes. Provavelmente, uma certificação poderia resolver a inquietação dele e abrir caminhos de carreira no futuro”, completa.



