Durante seus 18 anos de experiência no RH de grandes empresas, como Globo e Natura, a psicóloga Mariana Clark percebeu que os casos de burnout e depressão se multiplicavam no contexto organizacional. E mais: as empresas tinham poucas ferramentas para lidar com esses problemas. Desde então, passou a se dedicar à prevenção de adoecimentos mentais nas companhias, ambientes para os quais busca levar o diálogo.
Para ela, a expressão dos problemas e a validação das dores dos funcionários são fundamentais, e a empresa precisa ter processos de humanização e acolhimento.
Como gestora de RH da Globo, onde ficou até 2016, Mariana teve a oportunidade de trabalhar com o setor de medicina e segurança organizacional. Aproximou-se de profissionais da saúde e, então, decidiu se aprofundar no tema “perdas e lutos”, que já permeava seus estudos desde quando, aos 17 anos, ela perdeu um irmão, assassinado no Rio de Janeiro.
“Conhecimento não nos imuniza da dor, mas é uma forma de cura. Se a gente não investigar o que as experiências nos trazem de crescimento, nem sei o que estamos fazendo nessa vida”, afirma.
Brumadinho
Em 2018, ela abriu a consultoria Humanizar e logo teve a oportunidade de trabalhar para a Vale em Brumadinho, após o rompimento da barragem do Córrego do Feijão – que deixou 272 mortos, segundo a Associação dos Familiares das Vítimas (Avabrum). O desastre liberou 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, causando grande impacto ambiental e humanitário.
Mariana integrou o time de responsáveis por um trabalho junto às lideranças da diretoria de reparação e prestou apoio aos colaboradores da Vale. “Era um trabalho de levar ferramentas para que as pessoas pudessem dar conta do trauma”, explica.
Pandemia
Com a pandemia, em 2020, o trabalho dela ganhou ainda mais destaque: “De repente, a Covid-19 trouxe para todo mundo uma proximidade com a morte”. Sua proposta, desde então, foi provocar as empresas a levarem o cuidado para o centro das relações de trabalho, oferecendo acolhimento, capacitação e letramento emocional. Mariana afirma que tem apenas um jeito de fazer isso: “É olhar o indivíduo como um todo, entendendo qual é o papel do trabalho em sua vida e como a gente consegue alcançar equilíbrio”.
Seu processo de mentoria
A Top2You entrou na vida de Mariana junto com a transição de carreira. “O exercício de mentoria me ajudou a melhorar meu repertório”, conta. Ela explica que, no geral, os líderes entendem a importância de se falar sobre o tema da saúde mental, mas não possuem conhecimentos suficientes para cuidar de alguém que está apresentando sintomas. Ela orienta: “Às vezes, a ferramenta mais sofisticada é ter uma caixa de lenços à mão. Se você não tem nada para dizer a alguém que está chorando, ofereça um lenço. A pessoa vai entender que, ali, pode se emocionar”.
Nos processos de mentoria, Mariana tenta também conscientizar sobre a importância de se observar o comportamento dos colaboradores do seu time: “Se alguém está mais agressivo, vai para uma reunião com a câmera fechada e tem oscilação grande de desempenho, talvez seja preciso criar vínculo para depois cobrar o resultado esperado”.
Uma conversa terapêutica
“As pessoas estão precisando muito mais falar do que ouvir. Não é terapia, mas é um processo terapêutico”, conta Mariana sobre suas mentorias. O assunto “inteligência emocional” é o que mais atrai mentorados para ela: “Eles gastam de 15 a 20 minutos falando, porque precisam desabafar com alguém que tenha autoridade no assunto. Depois, trago conscientização, ampliação de repertório, acolho e valido”. Na última meia hora da sessão, Mariana parte para a solução do problema apresentado. Segundo ela, tudo é muito orgânico e intuitivo, nada monolítico. “O acolhimento não é técnico, mas sim humano”, explica.
Mentoria inesquecível
Mariana conta que, em uma das suas sessões de mentoria, atendeu um diretor do setor de telecomunicações. “Ele estava aflito porque uma colaboradora estava com problemas de desempenho e ele sentiu que precisava se aproximar”, conta. Depois de conversar com a colaboradora, ele descobriu o problema todo. “Ela tinha se demitido. Estava com problemas de doença na família e não tinha ninguém de confiança para cuidar do filho”, relembra. O diretor, então, ofereceu uma caixa de lenços e disse que no luto a gente não pode tomar decisões definitivas. Ele sugeriu que ela voltasse para casa, repensasse a demissão e reorganizasse a rotina. Ele disse que esperaria, pois ela era uma pessoa muito importante na equipe. “Depois de algumas semanas, a colaboradora voltou. Fez a reorganização necessária e seguiu em frente”, conta. “O gesto dele fez toda a diferença no vínculo com essa funcionária e com a empresa, e ela retribuiu o apoio com produtividade”, finaliza a mentora.



