Desde cedo, Patricia Gomes teve uma postura desbravadora frente aos desafios. Quando foi prestar vestibular, decidiu cursar Engenharia Eletrônica por um motivo curioso: era o curso mais concorrido. Mas acabou mudando de ideia.
Patricia descobriu que Engenharia de Produção era ainda mais difícil de entrar e, então, não hesitou: tentou, conseguiu passar e trocou de turma. “Tudo na minha vida eu encaro assim, como um desafio, uma oportunidade de me superar”, conta a executiva.
Sua carreira começou no setor bancário, mais precisamente no marketing do Banco Nacional, no início da década de 1990. Quando a instituição foi vendida para o Unibanco, Patricia foi junto. No entanto, não demorou muito para ela perceber que seu interesse não estava exatamente no setor de finanças. O que ela estava buscando era algo mais alinhado ao mercado de consumo. Foi então que decidiu mudar de área e assumiu a função de gerente de produto na Mondelez, empresa de alimentos dos Estados Unidos.
Em 1997, Patricia deu um passo decisivo ao ingressar na L’Oréal, multinacional francesa do setor de beleza. Essa viria a ser sua casa profissional pelos 23 anos seguintes. Começou como gerente de produto da linha Elseve – que, na época, possuía apenas 0,8% de participação no mercado. Hoje, a marca é uma das líderes em seu segmento.
Em 2001, foi promovida a diretora de marketing da L’Oréal Paris e, com o tempo, também ocupou cargos estratégicos à frente de Vichy e Kérastase, aprofundando sua visão sobre o mercado de beleza. “Meu maior desafio foi encontrar o meu caminho como marqueteira. Eu sou cartesiana, engenheira. Passei uns 15 anos da minha carreira tendo dúvidas se eu era criativa”, conta. Ao final desse período, Patricia decidiu que era o momento de se internacionalizar.
Em 2010, ela deu o passo mais ousado da sua carreira ao se mudar para Londres, onde criou um programa de expansão internacional para a The Body Shop, que na época fazia parte do grupo L’Oréal. Três anos depois, retornou ao Brasil para assumir a gerência geral da divisão de luxo da companhia.
Logo em seguida, aceitou o desafio de liderar a área de negócios digitais no Chile, ampliando sua atuação para outros mercados da América Latina. Com uma trajetória já consolidada, decidiu que era hora de buscar novos rumos. “Fiquei bastante tempo na L’Oréal, mas só porque a cada dois anos e meio eu mudava de cadeira. Passei por todas as divisões do grupo e aprendi muito”, explica. A sensação constante de renovação foi o que a manteve feliz por mais de duas décadas na empresa, mas já era hora de andar por outros caminhos.
A migração para a tecnologia
Após deixar a L’Oréal, Gomes se mudou para a África do Sul. Lá, mergulhou no ecossistema de startups de Cape Town. Simultaneamente, decidiu aprofundar seus conhecimentos em áreas emergentes, como marketing digital, design thinking e novas tecnologias – incluindo inteligência artificial e robótica. “Eu estava, e ainda estou, interessada em trabalhar com gente jovem, pensar coisas diferentes, compartilhar as minhas vivências e aprender com outras realidades”, afirma.
De volta ao Brasil em 2022, assumiu seu cargo atual de diretora de marketing na divisão de mobilidade da Edenred, grupo francês proprietário da Ticket Restaurante. A nova função tem lhe permitido combinar sua bagagem em grandes corporações com a experiência mais recente no universo digital.
Mentoria com sensibilidade
“Às vezes, os mentorados me perguntam: como você construiu a sua carreira? E eu digo que não sei. Eu só gosto de fazer as coisas, sou apaixonada. Eu pergunto, tenho curiosidade. Vou construindo com leveza. E, quando percebo, já estou envolvida com algo novo”, diz.
Essa abordagem leve é a base de suas mentorias. Ela acredita que é possível conciliar ambição e entrega com sensibilidade e autocuidado. Durante a adolescência, foi bailarina, e essa vivência moldou sua visão: para evoluir, era preciso disciplina e intensidade – mas sempre com suavidade e equilíbrio. Recentemente, ela se especializou em mentorias voltadas para mulheres, com foco especial nos desafios relacionados ao crescimento profissional, preparação para cargos de liderança, busca por promoções e na difícil, porém essencial, tarefa de equilibrar carreira e maternidade.
Mentoria inesquecível
“Eu fiz algumas sessões de mentoria para uma fundadora de startup na África do Sul e, desde então, tenho feito parte da história de crescimento dela”, relembra Patricia. Ela conta que a fundadora é uma mulher negra, com uma equipe só de pessoas negras, que desenvolveu um app para oferecer profissionais de beleza que atendem os clientes em casa. O foco está em serviços como cabelo, maquiagem, entre outros. Patricia conta que se sentiu especialmente conectada à trajetória dessa empreendedora, contribuindo para o refinamento do produto, conexões com parceiros estratégicos e, sobretudo, passando confiança. “Lembro de ajudá-la a se preparar para uma apresentação importante no Quênia, para a qual ela estava bastante nervosa. Tenho um orgulho absurdo de vê-la em cada conquista”, acrescenta.



