Janeiro costuma vir acompanhado de listas, metas, planejamentos estratégicos e aquela sensação de renovação.
Mas, para muita gente, o ano não começa assim.
Alguns profissionais já entram nas primeiras semanas de janeiro se sentindo esgotados, como se o descanso das últimas semanas não tivesse sido suficiente.
É que uns poucos dias de pausa não regeneram sistemas cronicamente adoecidos.
Descansar ajuda muito, mas não recompõe o que vem sendo continuamente drenado por ambientes, relações e modelos de trabalho que seguem adoecendo as pessoas no restante do ano.
É por isso que, antes de sonhar com os frutos de 2026, é preciso pensar em que solo eles vão nascer.
Regando árvores com veneno
“Imagine uma liderança que acabou de herdar um time esgotado.”
Quem propõe o exercício são as mentoras da Top2You, Micheline Torres e Marcelle Sampaio. Elas são fundadoras do Quero Vida Plena® – Consultoria e Desenvolvimento Humano, LinkedIn Top Voices em Liderança Consciente & Alta Performance Sustentável e criadoras do Método AutoLiderança Plena.
Para muitos líderes, não só é fácil imaginar esse cenário, como ele descreve o ponto exato em que se encontram.
São gestores que lidam diariamente com pessoas desmotivadas e exaustas, que sofrem com a alta pressão, com as metas agressivas e cenários complexos. Há uma eterna sensação de que tudo está por um fio — porque, provavelmente, está.
Os dados ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. O Brasil está em segundo lugar nos índices de burnout, segundo o International Stress Management Association, e lidera o ranking de maior prevalência de transtornos de ansiedade do mundo, de acordo com a OMS.
O número altíssimo de pessoas adoecidas é reflexo de uma estrutura laboral que prejudica os próprios trabalhadores.
Ela promete lucro e sucesso, mas entrega mais afastamentos, mais turnover e menos produtividade.
E o que muitas empresas fazem como resposta? Geram ainda mais adoecimento.
“A pressão por inovação e resultados rápidos nos fez tratar sintomas de falta de saúde mental e emocional com mais estímulo, mais cobrança, mais desgaste”, afirma Marcelle. “É como regar uma planta com veneno porque ela está murchando. Isso faz sentido? Não. Mas é exatamente o que vem acontecendo dentro do corporativo”, explica.
A liderança regenerativa parte de uma mudança de paradigma.
Ela caminha junto à economia regenerativa, um conceito bastante difundido por Jay Tompt, professor da Schumacher College. A proposta é que os sistemas econômicos devem fortalecer a vida enquanto criam valor, em vez de crescer às custas do esgotamento humano, social e ambiental.
Isso é possível quando empresas e lideranças reconhecem cada indivíduo como um ser integral, com potência própria, e entendem que crescimento pessoal e geração de valor caminham juntos.
Nesse sentido, Micheline e Marcelle explicam que o líder deixa de ser o chefe no topo da pirâmide para assumir o papel de quem cuida da cultura, das relações e das pessoas.
Regenerando propósitos, relações e pessoas
Cansaço, desmotivação e crises de criatividade são sinais de desconexão com seu propósito. É nesse ponto que a liderança regenerativa muda o foco.
Em vez de tentar engajar pessoas apenas por metas ou pressão, ela trabalha com o alinhamento entre crescimento profissional, qualidade de vida e resultados.
“Poucas pessoas se levantam da cama de manhã pensando imediatamente no retorno de investimento que sua empresa poderá conseguir naquele dia… Mas viver o crescimento profissional com qualidade de vida é uma ideia forte e grande o suficiente para se tornar um movimento que começa em você mas vai além do seu time”, afirma Micheline.
Os efeitos desse modelo aparecem em diferentes níveis.
Para os liderados, há mais coerência entre quem se é e o que se faz. Para líderes, menos solidão e menos controle excessivo. Para os negócios, relações mais fortes, inovação mais consistente e resultados que não dependem do esgotamento contínuo para se manter.
“A liderança regenerativa impacta o que é invisível até se tornar visível: a confiança vira desempenho sustentável; a escuta ativa compartilhada vira antifragilidade diante de crises; a segurança psicológica se expressa em inteligência coletiva. O lucro deixa de ser um fim extraído à força e se torna um resultado de um sistema saudável e inovador”, diz Micheline.
Com isso, Marcelle descreve um movimento recorrente nas mentorias que conduz. Profissionais que viviam divididos entre a alta exigência e o esgotamento redescobrem coerência. Entendem que saúde mental e emocional não são bônus nem algo restrito às férias, mas condição básica da própria vida.
É por isso que o maior benefício é a regeneração das relações: “Deixamos de operar no modo de sobrevivência e passamos a operar no modo de plenitude, onde a alta performance deixa de ser um roubo da vida para se tornar sua expressão natural”.
Quando isso acontece, a energia antes gasta em autocobrança, medo e cansaço volta a circular para criação, colaboração e inovação.
A hora de (re)começar é agora
O início do ano é um convite para ajustes de rota.
Mas, no caso da liderança regenerativa, não se trata de adicionar mais uma linha ao plano estratégico. Estamos falando de uma mudança de olhar.
A orientação de Micheline é parar de buscar o “manual da liderança perfeita” e começar pela escuta. “Escutar a si mesmo: quais padrões estão comandando minhas reações? Escutar o time: o que está vivo e pulsante aqui? O que está pedindo para ser cuidado e curado?”, detalha.
Na prática, isso pode se traduzir em rever a forma como as metas são definidas, alterar a gestão de erros e aprendizados, analisar como a cultura e os benefícios da empresa acolhem quem está em dificuldade, rever as melhores formas de potencializar talentos e ser mais transparente nos momentos de transição, por exemplo.
“Crescimento profissional é indissociável da qualidade de vida. Empresas que entendem isso não estão apenas se adaptando ao futuro, estão sendo atraídas para ele de uma forma inescapavelmente sustentável, inovadora e regenerativa”, defende. Liderar nesse contexto exige coragem para substituir a pergunta “até onde dá para exigir?” por outra, bem mais estratégica: como ajudar as pessoas para que elas atinjam sua máxima potência com qualidade de vida e saúde?



