Tem pessoas que decidem as suas carreiras profissionais ainda na escola e que a vida não passa de um seguir os pontos até chegar no objetivo imaginado. Essa, definitivamente, não foi a trajetória de Adriana Alves, 46 anos.
Para virar uma profissional de sucesso, ela teve de se reinventar várias vezes e precisou lidar com o racismo, que muitas vezes a impedia de ascender na carreira, mesmo tendo todas as qualificações necessárias.
Hoje, ela atua como conselheira consultiva, palestrante e também diretora de pessoas e governança do Pacto Global – Rede Brasil, iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) que busca conscientizar empresas em todo o mundo a atuar em defesa de um desenvolvimento sustentável e com cidadania.
O sonho de Adriana quando criança era estudar Astronomia, mas não foi possível realizá-lo. Seus pais se separaram quando ela tinha 12 anos, e a vida da moradora da Vila Matilde, na zona leste de São Paulo, foi difícil.
A sua mãe, dona de casa, se graduou em Enfermagem, correndo para sustentar os três filhos. Seu pai, também negro, trabalhou em grandes empresas na área petroquímica. Com a ajuda dele, ela pôde frequentar uma escola particular e fazer curso de inglês – um privilégio na realidade em que vivia. Ainda assim, ela se acostumou a ser a única menina negra dentro da sala de aula e sempre se esforçou para tirar as melhores notas.
Na hora do vestibular, Adriana escolheu Letras para Tradutor e Intérprete na Universidade São Judas e, paralelamente, começou a trabalhar como assistente administrativa financeira. “A minha graduação me levou a espaços importantes, porque eu usei o inglês a meu favor. Mas tive que construir uma carreira no mundo corporativo quase que do zero”, relembra.
Um caminho desconhecido
A carreira de Adriana começou aliando as duas experiências anteriores: a formação e o trabalho em escritório. “Fui me adaptando e, conforme as oportunidades me foram dadas, peguei todas elas”, conta.
Ela atuou por um tempo como tradutora e intérprete freelancer, mas logo percebeu que esse não era o seu caminho. Buscou uma vaga no setor administrativo/financeiro que exigisse o domínio do idioma. “Ter isso no currículo, no final dos anos 1990, não era algo habitual”, diz.
Foi assim que ela se tornou analista financeira internacional no escritório Machado, Meyer, Sendace e Opice Advogados, onde ficou por quatro anos.
Depois disso, atuou por dois anos como supervisora de pessoas, finanças e administração no escritório brasileiro da Kerkhoff Consulting. Passou pela Cisco, por dois anos, e trabalhou na Zero9, Arkadin e pela Simpson Thacher & Bartlett LLP, cuidando tanto da parte financeira como da gestão de recursos humanos.
Em 2022, assumiu como vice-presidente e head de diversidade, equidade e inclusão do BNP Paribas. O passo seguinte foi a atuação em conselhos diretivos e no Pacto Global.
Adriana, contudo, afirma que só despertou efetivamente para as questões raciais e de gênero aos 39 anos, na medida em que as discussões sobre esses temas ocorriam com cada vez maior frequência na sociedade. Casos como o de George Floyd, homem negro assassinado pela polícia nos Estados Unidos, e o de João Alberto Freitas, também negro e morto por seguranças do Carrefour, em Porto Alegre (RS), levaram Adriana a refletir sobre sua própria vida e carreira.
O desconforto ganhou uma explicação. “Fiz quase uma retrospectiva da minha vida inteira. E aí comecei a identificar lugares em que não adiantava eu me doar e fazer tudo com excelência, pois meus marcadores sociais e raciais me impediram de avançar”, afirma.
A partir desse momento, o seu foco foi começar a ajudar outras pessoas negras profissionalmente, por meio das mentorias e integrando coletivos, para oferecer o que ela gostaria de ter tido.
Conscientização e apoio
Adriana gosta de ser mentora porque ajuda as pessoas a refletirem e a recalcularem rotas no momento certo. “A situação do momento não representa a sua vida inteira”, destaca.
Em suas conversas, procura mostrar diferentes caminhos, ajudando os mentorados a conduzirem suas carreiras. “O mais interessante da mentoria é que ela materializa os seus desconfortos. Quando você está no olho do furacão, não consegue entender ou interpretar direito tudo aquilo”, explica.
Ela costuma ser mais procurada por mulheres e por pessoas negras, mas também por jovens em início de carreira. Também já fez mentorias para mulheres com mais de 50 anos enfrentando o etarismo.
Mentoria inesquecível
Em uma sessão, Adriana conheceu uma funcionária de 28 anos, da área de operações de um banco, muito insatisfeita com o trabalho. Terminada a mentoria, ela entendeu que era o momento de procurar oportunidades em outras empresas. Tempos depois, quando Adriana estava participando de uma roda de conversa em uma instituição do mercado financeiro para falar sobre lideranças femininas, uma pessoa da plateia pegou o microfone para fazer uma pergunta. Era a mentorada, que deu um depoimento emocionado sobre como aquela troca havia mudado a sua vida. Ela tinha se tornado mãe, mudado de emprego e agora estava feliz.



