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Mentores Fora de Série: Cicero Andrade 

Por top2you

O desejo de cursar Psicologia surgiu ainda na infância do carioca Cicero Andrade. Mesmo sem ter ninguém na família que fosse da área, ele queria entender melhor o comportamento humano desde pequeno.

Filho de um advogado e de uma comerciante, Cicero olhava como as pessoas agiam e tentava entender como viviam, as suas relações. Parte dessa vocação também tem raiz em um trauma que enfrentou ‒ quando Cicero tinha 9 anos de idade, seu pai faleceu com um problema renal aos 58 anos. Esses dois fatores tornaram óbvia a decisão por qual curso escolher. “Foi natural. Sempre fui o amigo procurado para as pessoas se abrirem”, conta.

Ele fez o curso na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e começou a estagiar já no terceiro período. Percebeu que as vagas em recursos humanos pagavam melhor e que a carreira profissional tinha mais futuro ‒ foi o que o atraiu inicialmente para o setor. “Vi que você também consegue influenciar positivamente a vida das pessoas. Então, encontrei meu caminho desde o início da faculdade”, conta. 

Vida corporativa

Cicero começou a estagiar na Amil e depois passou pela empresa de tecnologia Unisys, pela Transpev Transporte de Valores e pela Transgama Transportes, do grupo Shell. “Acabei tendo estágios em empresas de ramos bem diversificados no início da minha carreira”, diz. Quando terminou a faculdade, foi efetivado como coordenador de RH pela Transgama. Depois de dois anos na companhia, recebeu convite para se tornar analista nas Lojas Renner.

Na empresa, ao longo de seis anos, subiu até se tornar coordenador regional de RH, responsável pelas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país. A carreira ia bem, mas gerou um impasse. Para crescer mais, ele precisaria se mudar para a sede em Porto Alegre (RS), mas não queria abandonar o Rio e ficar longe da família.

Sem conseguir equacionar o dilema, achou que era a hora de procurar outra oportunidade. Foi contratado pela Ancar Ivanhoe Shopping Centers como head de RH e ficou sete anos na organização. “Praticamente montei a área”, diz. “Com a ajuda das pessoas que acreditaram no meu trabalho, levamos a empresa para a Great Place to Work.”

O bom desempenho rendeu a vice-presidência da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). Com pouco mais de 30 anos, sua carreira havia chegado ao topo. “Estava tendo sucesso, mas não era fácil. O dia a dia da vida executiva e as demandas da associação significaram que eu estava me doando bastante para o trabalho”, lembra.

E isso cobrou um preço. Foi exatamente nesse período que ele acabou duas vezes internado no hospital com suspeita de infarto. Na segunda vez, o médico alertou que ele era muito jovem para isso e que uma nova internação poderia ser fatal. Lembrando-se do caso de seu pai, ele decidiu parar tudo. Em conjunto com a sua esposa, Flávia Tavernari, eles rumaram para a Irlanda em 2012.

O plano inicial era uma mudança temporária, mas a vida no exterior os fez decidir por ficar fora do Brasil. Depois da saída da Ancar, ele foi trabalhar como diretor de RH e posteriormente CEO na Academic Bridge, escola de negócios em Dublin. A esposa também arrumou um emprego por lá.

Em 2015, eles resolveram criar a própria empresa, O Sabático, e continuaram morando no exterior. O objetivo é ajudar executivos a replanejarem suas vidas e suas carreiras, sempre olhando para o que mais importa. “Não queremos que todos larguem as empresas, mas que as pessoas saibam que há vida fora da caixa. Queremos ajudar as pessoas a respirarem e entenderem que existem várias formas diferentes de se viver”, destaca.

Em O Sabático, Cicero hoje tem uma vida muito mais tranquila e divide o seu tempo também oferecendo mentorias. E, sempre que pode, ele e a esposa viajam para um país diferente. Os dois já visitaram 81 até agora. 

Estímulo ao pensamento

Nas suas mentorias, Cicero procura aproveitar o tempo da sessão para ajudar o profissional a pensar fora da caixa e imaginar caminhos e soluções pouco convencionais para os seus dilemas. Formado em coaching, ele costuma aproveitar algumas técnicas nessas ocasiões, com o cuidado de evitar respostas prontas.

Segundo ele, às vezes alguém consegue ascender muito rápido na carreira sem ter se encontrado profissionalmente. “A nossa ideia é fazer a pessoa ser coerente com o que ela realmente deseja, e não com o que esperam dela”, destaca. “Temos muitos casos de profissionais que fizeram mudanças muito profundas nas suas vidas depois de passar pelo nosso processo”, relata.

Mentoria inesquecível

Cicero foi procurado por um advogado, de pouco mais de 40 anos, que havia acabado de ser aprovado em um concurso para juiz no Rio de Janeiro. Embora tivesse chegado ao topo da sua carreira e de ser respeitado na área, estava infeliz. Como os pais eram da área do direito, ele acabou seguindo a carreira por pressão da família, mas não era isso o que ele realmente queria. Durante as sessões, ele percebeu que sempre se interessou pela medicina, mas acabou deixando isso de lado. Os dois montaram um plano e ele fez a transição da carreira. “Ele já se formou. Não deixou de ser doutor, mas agora é um doutor diferente”, conta.