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Mentores Fora de Série: Elisângela Almeida 

Por top2you

É muito comum que executivos organizem a vida em torno do trabalho. Elisângela Almeida conta que sempre fez o inverso: ela coloca suas experiências pessoais na frente e, só então, escolhe quais vão ser os seus próximos passos profissionais.

A lógica se repetiu ao longo das últimas duas décadas. Desde quando cavou a primeira oportunidade de trabalhar no mercado internacional, quando foi enviada para trabalhar na Normandia, na França, pela empresa franco-estadunidense de energia Technip, até abraçar uma experiência inesperada na Malásia ou cursar um MBA na China.

Todos esses passos, conta, a ajudaram a se tornar uma experiente CFO, mas, ao mesmo tempo, garantiram que ela nunca tivesse que abandonar sua paixão pessoal: o montanhismo. “Minha mãe sempre falava assim: estuda para você poder ir ao salão de beleza todo fim de semana sem depender de homem nenhum. Eu estudei e trabalhei muito, mas para ir subir montanhas no fim de semana”, conta. 

A conquista da independência

Elisângela acredita que sua personalidade aventureira foi moldada na infância, convivendo com uma mãe superprotetora. Ela conta que, na tentativa de se tornar independente, aprendia de tudo sozinha, lendo enciclopédias. Elisângela tinha decidido estudar o curso técnico em Metalurgia para poder trabalhar logo e seguir a profissão do pai. Mas, quando conheceu pessoas que tinham pretensão de fazer faculdade e morar fora, refez os planos. “Gostei mais dessa ideia”, diz.

Ela resolveu prestar vestibular e escolheu Contabilidade por questões práticas: “Era fácil de entrar e era uma carreira estável, que dava um bom dinheiro”, conta. A primeira oportunidade profissional surgiu em 2002 na Technip, em Vitória (ES). Após seis anos trabalhando como assistente de controladoria, veio a grande chance de expandir horizontes: ela conseguiu uma vaga em Le Trait, na França. “Foi minha primeira viagem internacional, e já fui para trabalhar”, afirma. 

30 países em dois anos

Encantada com a vida nova, Elisângela conheceu toda a Europa em tempo recorde, viajando aos fins de semana. Dois anos depois, conseguiu um cargo em Paris na mesma empresa, onde ficou por mais dois anos. Até que, em 2012, surgiu uma proposta inesperada: “Meu chefe perguntou: o que você prefere, ficar três anos na Escócia ou seis meses na Malásia? Era louca para visitar a Ásia e fui conhecer Johor.”

A carreira internacional (e na Technip) terminaria no ano seguinte. No retorno ao Brasil, com muita experiência na bagagem, começou a escalar a escada corporativa no setor de finanças em empresas como GE, Modec, Valeo, Solinftec e In Press, onde se tornou diretora, em 2021.

Em 2023, Elisângela decidiu fazer MBA. “Tinha ficado uma frustração do meu tempo na Malásia, porque eu queria ter explorado mais o continente. Então resolvi ir estudar na China”, conta. 

Mentoria e riscos calculados

Hoje Elisângela é mentora, membro de conselhos e presta consultorias. Quem a procura como mentora, muitas vezes, chega atraído pelo estilo de vida incomum de uma especialista em trekking que já subiu o Kilimanjaro e visitou 45 países.

Mas se engana quem pensa que ela só fala sobre ideias extremamente ousadas. “Na verdade, é tudo questão de escolha. Eu poderia fazer como a maioria dos executivos sonha e comprar um apartamento enorme em São Paulo com quatro suítes. Mas, em vez disso, eu gasto dinheiro em viagens internacionais. Isso é o que me satisfaz”, explica.

Ao escutar os desafios dos mentorados, Elisângela busca encorajá-los a tomar as decisões que vão ao encontro de sua vontade e condição. “Não acho que as pessoas precisem ser intempestivas como eu, mas gosto de incentivar cada um a encontrar o seu caminho”, afirma.

Elisangela destaca que, quando não está ocupada gerenciando estratégias financeiras ou brigando por diversidade, ela está escalando. “Eu dedico a minha vida a atingir novos patamares, literalmente e figurativamente, e quero levar as pessoas – sejam da minha equipe, sejam os meus mentorados – a fazer o mesmo.” 

Mentoria inesquecível

Elisângela conta que foi ser mentora de uma gerente sênior que enfrentava o desafio de liderar um time majoritariamente mais experiente do que ela, com muitos profissionais próximos da aposentadoria. O seu maior desafio era mantê-los engajados nas tarefas. A mentorada relatava o caso de um colaborador em específico, muito respeitado, que adorava representar a companhia em visitas de autoridades. “De maneira autoritária, ela condicionou a sua participação em um evento à conclusão de um relatório de auditoria. Expliquei que era como se ela dissesse para ele: ‘Só vai jogar bola se fizer o dever de casa’”, conta. Durante a conversa, Elisângela foi sugerindo o motivo dessa necessidade da gestora de negar a preferência do subordinado. “Perguntei a ela: havia algum risco real de esse profissional não entregar o relatório? A resposta foi ‘não’. Então, sugeri: ‘Em vez de tratá-lo como um jovem aprendiz, trate-o como o profissional sênior que ele é. Dê responsabilidade, prazo e confiança'”, conta. Foi uma revelação. A mentorada percebeu que o excesso de rigor pode prejudicar e é o oposto da liderança adulta. “É preciso reconhecer motivações, respeitar trajetórias e engajar pelo propósito. Depois dessa virada, ela passou a conquistar o respeito do time justamente pela confiança que demonstrava”, diz.