Filho de um suíço com uma brasileira, o carioca Guilherme Laager, 68 anos, conviveu com múltiplas culturas desde cedo. Passou a infância entre o Brasil e a Suíça, onde morou por vários anos, mas se fixou no Rio de Janeiro com a separação dos pais. A dupla nacionalidade o levou a se interessar por idiomas – ele é fluente em alemão, francês e inglês.
O relacionamento dos pais não durou muito e o divórcio aconteceu quando ele estava com 14 anos. Foi o momento em que ele começou a trabalhar para ajudar nas despesas de casa. Ainda adolescente, foi assistente de um marchand, deu aulas particulares e trabalhou em uma construtora.
Foi essa última experiência e a admiração por seus parentes engenheiros que levaram Guilherme a cursar Engenharia Civil na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, posteriormente, fazer uma pós-graduação em Administração na mesma universidade. Quando entrou na faculdade, ele já tinha cerca de três anos de experiência no ramo. E parecia que essa seria a sua trajetória, até que um convite mudou tudo.
Mudança de rumo
Um amigo o convidou para trabalhar em uma consultoria, a estadunidense Arthur Andersen (hoje Accenture), considerada uma das maiores empresas de consultoria do mundo. Guilherme ficou receoso porque teria de implantar sistemas – algo que não conhecia.
Apesar do receio, ele usou sua intuição e aceitou o desafio, entrando no mundo novo da consultoria como trainee, em 1981. “Com 20 e poucos anos, estava em clientes de grande porte, como Votorantim, Globo e Fiat. Viajava pelo Brasil todo, conhecendo culturas e peculiaridades do país”, lembra.
Já como gerente de projetos sênior e candidato a sócio, Guilherme ficou responsável por uma iniciativa na Brahma. Com dois anos de projeto, foi abordado por um dos três donos da companhia, Karl Hubert Gregg. “Guilherme, eu ‘gostar’ muito que você querer vir para a Brahma”, disse, num português carregado de sotaque alemão. Guilherme ficou surpreso e questionou: “Mas para onde eu vou, seu Gregg?”. Então, ouviu a seguinte resposta: “Quem vem para a Brahma não pergunta para onde vai”. A proposta inusitada aconteceu 45 dias antes do seu casamento.
Seria um risco grande mudar de empresa nesse momento, mas Guilherme confiou na sua intuição mais uma vez e, aconselhado por pessoas próximas e experientes, topou. Remodelou a lua de mel, que era uma viagem para a Europa, por um fim de semana em um hotel fazenda. “Foi o teste de fogo da minha mulher, mas ela passou”, brinca.
Com oito meses na empresa, Guilherme teve mais uma surpresa. Era 1989 e a Brahma acabava de ser vendida. A lógica dizia que ele não permaneceria, já que era o responsável por todas as compras internacionais e os novos donos poderiam colocar alguém de confiança na posição. Mas Guilherme foi entrevistado por Marcel Telles, um dos sócios, e passou no teste. “Naquela época, eu não tinha mais medo de mudar. Na frente de um dono, mostrei como eu pensava e como eu era, e acabei fazendo parte do time”, diz.
A experiência durou 15 anos. Guilherme teve a oportunidade de dirigir fábricas, participar da fusão com a Antarctica, que criou a Ambev, e ser promovido aos cargos de diretor executivo de suprimentos, de logística e de tecnologia da informação.
A bagagem adquirida com a Ambev, fez com que um dos acionistas da Vale o contratasse como diretor executivo de logística. “Foi uma grande experiência. Aprendi muito com o Roger [Agnelli, presidente da companhia de 2001 a 2011]”, destaca. Desde então, Guilherme se dedica a atuar na sua consultoria própria, com atuação focada em conselhos diretivos ou projetos de turnaround e M&As.
Contra o imediatismo
As mentorias não eram uma ferramenta comum durante a carreira de Guilherme. Por isso, ele levava em conta um conselho do seu pai, de se mirar e estar próximo de pessoas experientes e que tivessem os mesmos valores que nortearam toda sua formação. Informalmente, também buscava conselhos de amigos sobre os próximos passos.
Guilherme acredita que todos os profissionais devem fazer sempre sua “automentoria”, se desenvolvendo por meio de reflexões, de leituras direcionadas, do esporte ou da vida espiritual. “Eu leio muito, principalmente sobre grandes líderes, como Napoleão, Churchill, Júlio César. Tenho mais de 2 mil livros, mas eles não são de motivação”, diz.
Nas suas mentorias, Guilherme não gosta de se concentrar em problemas imediatos. Ele se vê muito mais como um “confidente de negócios” e, por isso, sua abordagem consiste em olhar o cenário todo (algo que ele chama de “visão helicóptero”) e buscar caminhos de forma mais ampla. As orientações geralmente incluem tarefas, que vão de recomendações de livros a mudanças de comportamento, e seu desdobramento é acompanhado nos encontros seguintes. “Gosto de deixar uma semente”, conta.
Mentoria inesquecível
Uma das mentorias que mais marcaram Guilherme aconteceu quando ele foi procurado por um gerente de empresa varejista. O mentorado confessou que não admirava o chefe, muito menos o superior do seu chefe, o que gerava uma forte desmotivação. O caso era crítico, porque o funcionário estava a ponto de pedir demissão. “Nesse caso, a solução foi ele buscar caminhos internos na empresa para que, se surgisse uma oportunidade, ele mostrasse muita vontade de ir.” E foi o que aconteceu. Quando apareceu uma vaga em outra área, ele se candidatou e foi selecionado. Tempos depois, alcançou um cargo C-level.



