Nascido em uma família de classe média baixa, Joanylton Ruthes cresceu no interior de Santa Catarina. Filho do meio de cinco irmãos, ele começou a trabalhar desde cedo, ajudando os pais quando tinha 16 anos. Ele conta que, quando chegou o momento de fazer faculdade, sabia que a família não teria como dar o apoio financeiro.
Ainda assim, ele não desistiu. Conseguiu conciliar o seu emprego durante o dia, como escriturário no Banco Itaú, e pegava duas horas de ônibus para cursar Administração de Empresas na Universidade da Região de Joinville (Univille). “Eu sabia que a educação seria a forma para eu evoluir na vida”, conta.
Pouco depois de se formar, começou a fazer uma pós-graduação em Logística, na mesma universidade, e em 1999 entrou na Renault. O gestor francês que o contratou foi um dos seus primeiros mentores. Joanylton ainda se lembra da entrevista. “Ele pegou meu currículo e começou a riscar. ‘Por que eu preciso saber o nome do seu pai?’. Eu preciso lidar com essa pilha de currículos aqui e preciso que você vá direto ao ponto”, relembra.
Depois de uma hora e meia de conversa, o francês propôs um desafio: se ele fizesse três perguntas inteligentes, ficaria com a vaga. Joanylton perguntou sobre a cultura da Renault, como seria o treinamento e como era o organograma. “Ele queria ter certeza de que eu entendia exatamente onde estava entrando. Ele viu um potencial em mim que nem eu via”, diz.
Só saio para ir para a Volvo
Esse foi o primeiro passo dele na montadora francesa, onde ficou por dez anos, sempre na área de logística. Foi analista, gerente de planejamento de produtos e chegou à coordenação de logística em planejamento de vendas e operações em 2003.
Ficou nesse cargo até 2006, ao ser promovido para gerente de transportes. Joanylton continuou estudando. Ele fez uma pós-graduação em Marketing pela Universidade Federal do Paraná e um MBA pela FGV entre 2007 e 2008.
Enquanto fazia esse segundo curso, recebeu uma ligação de um headhunter. Agradeceu, mas disse que não tinha interesse. Havia acabado de mudar de função na Renault e gostava bastante de trabalhar lá. “Eu até brinquei: eu só sairia da Renault para ir para a Volvo”, conta. A vaga era para a Volvo.
Para onde estamos indo?
Era 2008 quando Joanylton começou a sua jornada na Volvo. Ele entrou como gerente de materiais e foi promovido para gerente-geral de partes em 2010. Na sequência, ficou dois anos como diretor de logísticas de manufatura e mais um e meio como diretor de serviços de logística de mercado para a América Latina.
Nesse momento, ele tem a primeira oportunidade de internacionalização na carreira. Nos Estados Unidos, ele foi para trabalhar como diretor de operações de logísticas de serviços para a América do Norte e acabou chegando à vice-presidência da área.
A sua rotina na função, contudo, era pesada e ele precisava viajar praticamente todas as semanas. A vida familiar, com a esposa e filha bebê, estava fazendo falta. Então, em meados de 2018, ele aproveitou a chance de retornar ao Brasil.
Assumiu a posição de diretor do grupo de operações de caminhões em logísticas de serviços de marketing da empresa, com sede em Curitiba. No período da transição nos EUA, Joanylton tomou um susto. Após um jantar, retornou ao hotel passando mal, com muita febre. Levado às pressas para o hospital, ele descobriu que estava com um furo em seu intestino. “Estava doente, mas, também, com burnout. Hoje eu consigo enxergar. Os meus indicadores de sucesso estavam errados, eu precisava mudar”, conta.
Escapou da cirurgia, mas precisou passar dez dias internado nos EUA para se recuperar da inflamação. Em médio prazo, conta, ele ia mudar de vida. Joanylton ficou no cargo durante o ano de 2018 e, depois de uma breve passagem de quatro meses pela direção de remanufatura, assumiu a mesma função de vice-presidente que tinha nos Estados Unidos, só que, agora, cuidando da América do Sul.
Durante a pandemia, começou a ter contato com mentorias externas, além das que fazia internamente na Volvo. Notou que estava com vontade de contar a sua história. A principal lição que espera que seus mentorados tirem é a necessidade de saber aonde eles querem chegar. E qual pessoa querem se tornar. “Eu falo muito: se eu estou indo na direção do abismo, é melhor ir a cavalo do que de Ferrari. A velocidade só é boa se eu estiver indo para onde quero ir”, diz.
Mentoria inesquecível
Joanylton teve um mentorado que, apesar de bastante jovem, já era líder e tinha bastante potencial. No entanto, ele notou o foco excessivo em sua carreira, aproximando do que seria definido como alguém viciado em trabalho. No começo do primeiro encontro, Joanylton falou que nem sabia se seria o mentor correto para ele. “Porque eu via a minha carreira como uma consequência, não como um objetivo. E não tive medo de brecar”, diz. Mas bastou uma sessão para gerar uma conexão bastante forte e, ao fim dela, o mentorado já havia mudado muito. “Ainda hoje ele volta e meia me agradece por ter mostrado um outro lado. Ele deu uma virada de chave que foi impressionante, hoje sabe equilibrar as coisas de forma muito melhor”, conta.



