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Top2You | Mentoria de alto impacto

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Mentores Fora de Série: Marcelo Travaglia 

Por top2you

A primeira experiência profissional de Marcelo Travaglia foi no antigo Banco Maisonnave (depois, Meridional) quando ele tinha 14 anos. Foi contratado para ser office boy e trabalhou por lá por quase dois anos. Ocorre que era o fim da década de 1980 e o mercado financeiro brasileiro não estava em seu período mais estável.

Em meio a um quebra-quebra geral no setor, o seu empregador foi liquidado e Marcelo se viu com 18 meses de salário no bolso. Foi aí que teve uma ideia que mudaria a sua vida: iria estudar inglês em Londres.

De volta, e com domínio da língua, conseguiu imediatamente emprego na mineradora Italmagnesio supervisionando embarques de exportações em portos. Ficou dois anos. Decidiu fazer a graduação em Administração na UNIP e, imediatamente, conseguiu um estágio no banco Chase Manhattan. “Hoje em dia, o inglês é menos um diferencial, mas, na época, era como se você fosse um programador incrível”, afirma.

Marcelo pôde escolher em qual área queria trabalhar no banco. Optou por controladoria e aprendeu tudo o que poderia: produtos bancários, a parte contábil, financeira e regulatória. Na prática, ele funcionava também como um tradutor entre os estrangeiros e os brasileiros do banco, inclusive diretores. Em certo momento, um deles lhe deu um conselho: se você fizer Contabilidade, sua carreira vai bombar. Aceitou a dica e se matriculou no curso.

Em 1993, recebeu uma proposta para trabalhar na controladoria do JP Morgan. Poucos meses no cargo, o contador responsável por todo o balanço do banco foi demitido e ele assumiu essa função aos 28 anos. A operação cresceu o suficiente para atrair a atenção de outros bancos.

Em 2001, o Goldman Sachs queria entrar no Brasil e contratou alguns funcionários do JP Morgan, inclusive ele, para montar a parte de controladoria. Marcelo seria o controller financeiro, mas os atentados de 11 de setembro congelaram o projeto. Quase todo mundo foi mandado embora.

Durante cerca de três anos, ocupou o escritório local ao lado apenas de um chefe de tecnologia e de outro que cuidava da parte regulatória. A matriz o chamou para fazer projetos em Nova York e Chicago, enquanto ele fez um MBA em Administração pela USP. 

Mudanças bruscas

Quando o Goldman Sachs decidiu retomar o projeto, ele virou o diretor financeiro e de risco, cargo que ocupou entre 2004 e 2008.

Em 2008, com a entrada do Lehman Brothers no Brasil, Marcelo foi convidado para montar a operação como diretor administrativo. “Pouco tempo depois, o banco quebrou e arrastou todos os mercados globais na famosa crise financeira das hipotecas americanas de 2008. Basicamente, no dia seguinte ao anúncio da quebra, eles chegaram para mim e falaram: ‘Agora vocês se virem aí. Boa sorte’. Eu nunca mais vi minha chefe a partir daquele dia”, lembra.

Marcelo teve papel fundamental na estruturação da venda do espólio do Lehman Brothers no Brasil para o Standard Chartered Bank, onde passou a atuar como diretor administrativo. Permaneceu na instituição entre 2008 e 2015, sendo responsável por todas as áreas operacionais e administrativas da operação brasileira.

Com a operação redondinha, ganhou permissão para fazer alguns projetos na África, pedindo licença bancária em países como Angola e Moçambique. Ele assumiria o cargo de responsável por todo o Cone Sul do continente quando quem o ocupava se aposentasse. Porém, antes disso acontecer, foi convidado e aceitou atuar como CIO (chefe de tecnologia da informação) responsável pela Europa, baseado em Londres. 

Novo capítulo

Ficou quatro anos na função, mas uma reestruturação do banco, pouco antes da pandemia, realizou um corte de custos e seu cargo não existiria mais. Marcelo foi convidado para ir para Dubai ou Cingapura, mas, cansado, preferiu abrir um novo capítulo na sua carreira: empreender.

Fundou uma plataforma de educação financeira para jovens chamada Tradem e, após se mudar para o Marrocos, onde a esposa diplomata que conheceu em Angola serve como vice-embaixadora da Holanda, começou a ajudar startups com impacto social nas regiões do Oriente Médio e do Norte da África, fazendo a intermediação com investidores estrangeiros.

Marcelo começou a dar mentorias assim que saiu do banco. “Passei muito tempo mexendo com somas impensáveis de dinheiro e grandes projetos sem ter a dimensão exata do que representavam para a sociedade. Ajudei a precificar muitos produtos tóxicos da época da crise dos títulos americanos. Fui conivente com aquilo”, afirma. Lembra até que esse assunto surgiu no dia em que conheceu a atual esposa, uma advogada especializada em direitos humanos. “Ela me disse: ‘Vocês destruíram o mundo’ e ela tem razão. Eu trabalhei 25 anos no mercado financeiro, mas, a partir do momento em que comecei a participar do mundo da diplomacia e ajuda humanitária, tive que parar. Esse foi o principal motivo que me fez sair. Preciso fazer algo que faça diferença. Por isso que eu trabalho hoje com startups de impacto social”, conta. 

Mentoria inesquecível

Um CEO de uma empresa de saneamento básico do Nordeste queria fazer mentoria com ele. “Eu fiquei até: caramba! Ele era praticamente uma celebridade”, conta. Ficou curioso em como poderia ajudá-lo. Mas o mentorado disse que também vinha do mercado financeiro, e que precisava de alguém para conversar e trocar ideias “na mesma língua”, porque não aguentava mais lidar com jornalistas, não aguentava mais certas figuras políticas locais e estava tendo problemas complexos com um dos seus chefes. “Foi muito legal. A conversa foi muito, muito bacana. Identificamos uma série de situações em comum em nossas experiências e trocamos a forma de lidar com essas situações. Ambos saíram mudados”, diz.