“Como você vai me colocar de diretor comercial se eu nunca vendi uma caixinha de remédio?”, perguntou Ricardo Maykot ao seu chefe na Novartis, em 2007, quando já tinha uma carreira de 20 anos no marketing da indústria farmacêutica. A resposta marcou Ricardo, já que o gestor disse, com todas as letras, que o seu desafio não era vender, mas gerir pessoas. Na época, ele já acumulava mais de dez anos em cargos de gerência na companhia. Mas foi essa conversa que deu o impulso inicial para deixar de ser um profissional técnico para se tornar um líder de grandes setores.
O início no marketing
Muito antes de ser líder e se apaixonar pela mentoria, a carreira de Ricardo foi no marketing. Acabou nessa área porque, como atendente do Banco Mercantil, aos 17 anos, ele anotava e compartilhava estatísticas sobre os perfis dos clientes, chamando a atenção da equipe da matriz numa época em que não se conhecia o termo CRM. Ao conversar com eles, viu que esse era o caminho que queria seguir.
Enquanto ainda estudava Administração na UNIMESP, em 1987, entrou no programa de trainees na Credicard e, depois, foi efetivado, passando cinco anos na empresa. Ficou um curto período na Companhia Atlantic de Petróleo e, depois, foi para a Pfizer, em 1994. “Eles precisavam de alguém que entendesse de programas de fidelização e eu, que não sabia nada do segmento da saúde, acabei contratado”, conta.
Avanço profissional
A sua grande chance de crescer na carreira aconteceu em 1998, quando entrou na Novartis como gerente de produto. Ricardo conta que notou, rapidamente, que se tratava de uma empresa sólida, com valores próximos aos seus, onde poderia construir um legado, e lá permaneceu por 24 anos. Ele foi subindo no organograma até se tornar diretor executivo do grupo suíço.
Para ele, o sucesso teve a ver com o equilíbrio entre aproveitar oportunidades e saber dizer “não” quando necessário. “Tive diversas chances de trabalhar fora do Brasil pela Novartis, o que era o sonho de muita gente na minha posição. Mas, pela minha relação com família e amigos, nunca me interessou ir para as Filipinas e ficar lá sozinho”, diz.
Para Ricardo, um profissional precisa saber conduzir a carreira para não tomar caminhos que não têm a ver com ele, seja por gratidão ao chefe, para não desagradar a empresa ou, até, pelo salário. “Eu entendi que a minha canoa estava no Brasil e finquei o pé só nela. Assim, fui cavando as oportunidades”, resume.
O início da mentoria
Após mais de duas décadas na Novartis, o executivo já tinha feito todos os treinamentos possíveis e a empresa não sabia mais o que oferecer para desenvolvê-lo. “Aí eu pedi para me pagarem um curso de coaching para tentar implementar alguns processos lá dentro. Eu já fazia mentorias informais, mas queria metodologia”, conta.
O processo de Ricardo nas mentorias dentro da Novartis acontecia da mesma forma que tudo em sua carreira – de maneira metódica e organizada. “Eu trato as sessões como meu trabalho. Acho importante cobrar lição de casa, ver se a pessoa tentou evoluir nos pontos abordados, faço até um tracking do progresso”, diz.
Como tomou gosto pelo processo, em 2022 o executivo fez o que já planejava havia anos: se aposentou do mundo corporativo para abraçar novas atividades, como tornar-se membro do conselho da Hypofarma, professor convidado na Fundação Dom Cabral e mentor da Top2You.
Mentoria é construção coletiva
Alguns dos desafios principais de sua carreira aparecem nas mentorias: como deixar de ser um profissional técnico para transformar-se em gestor, como angariar pessoas dentro da empresa para advogarem a favor do seu crescimento, como motivar equipes a fazerem aquele esforço extra pelo melhor resultado.
Quem o procura geralmente são aqueles profissionais em ascensão na carreira, que vêm de promoções recentes ou estão ávidos por um novo movimento dentro da empresa. Seu método é oferecer uma palavra que sirva como semente de curiosidade ou incômodo no mentorado. “Mas também não sou Dalai Lama. Não fico ali sentado pronto para oferecer uma pílula pré-concebida de sabedoria. A pessoa precisa querer se mexer”, explica.
Para ele, a mentoria é uma oportunidade de estudar coisas novas. “Tenho aprendido muito sobre letramento racial, inteligência artificial, liderança adaptativa e outros temas que surgem nas sessões”, conta.
Mentoria inesquecível
Ricardo destaca uma mentoria para um jovem que tinha sido efetivado em uma empresa de agronegócio. Ele entrou via programa de trainees, mudou de estado e passou a trabalhar com a equipe de vendas. “Ele estava muito preocupado porque a situação do setor era péssima. O rapaz achava que, se ele não desse resultado em curto prazo, poderia até perder o emprego”, diz. Aos poucos, Ricardo foi acalmando-o, dizendo que não faria sentido a empresa contratá-lo e investir nele para demiti-lo na sequência. “Nas sessões, focamos em criar uma estratégia para o setor e, mais do que isso, em tranquilizar o profissional, fazendo-o entender que estava tudo bem se o resultado não aparecesse em três meses”, conta. A mentoria ressignificou a ansiedade do jovem, deixando claro que o seu desafio era mostrar à empresa que ele sabia o que estava fazendo, em vez de tentar qualquer coisa para ter resultado rápido.



