Senso comum ou preconceito geracional
Discutir descriminação etária no universo corporativo não é simples porque nem sempre ele se manifesta de forma clara.
De acordo com a pesquisa “Etarismo e inclusão da diversidade geracional nas organizações”, realizada pela Robert Half em parceria com a Labora, em 2024, 63% das empresas afirmaram nunca ter vivenciado casos de etarismo. Ao mesmo tempo, 69% reconheceram que não oferecem oportunidades equitativas entre diferentes gerações.
Ou seja, o preconceito etário não aparece apenas quando uma pessoa mais velha deixa de ser contratada. Na prática, ele costuma se manifestar de forma mais sutil no cotidiano, com decisões guiadas por vieses relacionados à idade.
Maria Paula, HR Business Partner Director at Globo, e Christiano Ranoya, fundador e CEO da Indico, apontam alguns dos estereótipos e percepções mais comuns:
- Associação entre idade, dificuldade com tecnologia e resistência a mudanças.
- Crença de que profissionais 50+ custam “caro demais”.
- Estigma de menor adaptabilidade, velocidade e energia.
- Visão de que uma carreira madura significa apenas proximidade da aposentadoria, e não potencial de reinvenção
- Percepção de que pessoas mais experientes carregam mais “problemas pessoais” ou responsabilidades que impactam o trabalho.
Como resume Jac Lopes, fundadora e CEO do Movimento Idade é Potência, muitos dos estereótipos surgem de uma visão superficial sobre maturidade, produtividade e capacidade de adaptação.
Segundo ela, muitos profissionais maduros estão se reinventando no digital, criando mentorias, negócios e novas fontes de renda a partir da experiência acumulada ao longo da carreira. “A dificuldade nunca foi intelectual. Muitas vezes foi emocional, depois de anos ouvindo que o digital era um espaço para jovens”, explica.
Experiência não elimina desafios, e nem potencial
Identificar generalizações é uma parte essencial da conversa, que passa também por ampliar o debate sobre envelhecimento e as demandas específicas que podem surgir. Afinal, pessoas mais experientes podem, de fato, enfrentar desafios reais às transformações do mercado, assim como qualquer outra geração.
“Os mais velhos não nasceram dentro de um mundo digital, portanto, têm de fato mais dificuldade de entender a lógica, sem falar na velocidade de mudança, que não é o que se via no passado”, afirma Sergio Frias, presidente e CEO da CX Hub Smart Consulting Inc.
Ainda assim, Frias defende que reconhecer essas dificuldades não reduz valor, pelo contrário, “Creio que os 50+, por conta da sua sabedoria, evitam gastar energia à toa e buscam soluções de integração da tecnologia de forma mais humanizada”.
Se por um lado os desafios geracionais são reais, por outro, o erro está em colocar todas as pessoas “na mesma caixa”, um viés de homogeneização criticado por Luiz Barreto, CFO da Merck. Para ele, as trajetórias individuais e a capacidade de adaptação variam muito dentro dessa faixa etária e não deveriam gerar barreiras automáticas nos processos. “Eu mesmo atravessei, e vi outros atravessarem, transformações de negócios e tecnologia com muita energia”, relata Barreto.
Silvia Sfeir, Director of Institutional Sales & Market Access na Bayer, chama atenção para outro estereótipo recorrente: a ideia de que quem soma mais anos de atuação necessariamente representa um custo mais alto para as empresas. “Talvez o debate não devesse ser ‘quanto custa’, mas sim ‘quanto valor e produtividade ele gera para o negócio’”, afirma.
Essa percepção de que a senioridade engessa o orçamento também é questionada pelo consultor e conselheiro executivo Sergio Domanico: “Nessa fase da vida as contas podem ser menores do que antes e acredito haver maior flexibilidade em termos de fixo versus variável, CLT ou PJ”, explica.
O viés financeiro, inclusive, costuma vir acompanhado de outra barreira velada, a ideia de que profissionais seniores seriam menos “hands on”, complementa Cleber Voelzke, que atua como conselheiro de administração. Ele relata já ter visto esse preconceito surgir dentro das empresas, especialmente quando a pessoa já ocupou cargos de alta liderança anteriormente. “Na verdade é o inverso, o call to action é mais apurado”.
A flexibilidade para discutir formatos mais modernos de trabalho é um ganho para que as organizações consigam acessar uma senioridade extremamente valiosa com uma estrutura de custo mais inteligente e sustentável.
Se desenvolver também é para nível sênior
Falar sobre profissionais 50+ é, sobretudo, falar sobre a necessidade de revisar os olhares. O desenvolvimento não é um processo restrito à juventude em um ciclo que se encerra com o tempo, ele é contínuo ao longo da vida.
A mentoria é um recurso valioso capaz de apoiar a troca de experiências e o diálogo entre diferentes fases da carreira. Ela funciona como uma ponte estratégica, permitindo que o conhecimento acumulado e as novas competências digitais circulem livremente, acolhendo e potencializando as particularidades de cada geração.
Ela pode apoiar, por exemplo, líderes que precisam aprender a gerir equipes multigeracionais e também profissionais mais experientes em processos de transição, reinvenção ou atualização de carreira. Além de transmitir conhecimento, a mentoria cria espaços de troca e adaptação, fortalecendo a capacidade de diferentes gerações aprenderem umas com as outras.
Na Top2You, essa troca é facilitada por uma grade diversa de mentores, reunindo desde executivos com décadas de experiência até lideranças mais jovens e conectadas às novas dinâmicas do mercado.



