Quando chegou o momento de fazer a faculdade, Conrado Schlochauer optou por Administração de Empresas na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Mesmo achando a universidade uma “super escola”, não era exatamente uma paixão: ele ia bem e não reprovava.
Ocorre que, quando chegou ao mercado de trabalho, como estagiário, notou que não conseguia aplicar nada o que havia aprendido no dia a dia. E isso era uma experiência comum também para os seus amigos de sala. “Então, falei: tem uma oportunidade aqui”, lembra. Com dois sócios, ele criou uma empresa fazendo seminários detalhando as aplicações práticas do conhecimento acadêmico para os alunos da própria Getulio Vargas e de outras faculdades.
E teve sucesso. Quando se formou, fundou a SSJ e embarcou em uma carreira focada em aprendizagem corporativa e de adultos. Durante os primeiros dez anos de atuação, o foco era em cursos abertos, com especial interesse em inovação e aprendizagem. “Tinha um dilema que no fundo é parecido com o que vivemos agora: os treinamentos são oferecidos, mas as pessoas não gostam e não aplicam”, afirma.
Os cursos abertos se transformaram em consultoria de aprendizagem para grandes empresas em 2002, com a rebatizada LABSSJ. Cerca de 11 anos depois, a empresa se funde com a Affero, também de educação corporativa. Conrado ficou na nova Affero Lab até 2018. Dois anos depois, ajudou a fundar uma nova empresa, a Nōvi, que trabalha com clientes como Vale e Eletrobras. “O que fazemos é repensar a estrutura de aprendizagem. Aqui, fazemos isso de maneira ainda mais intensa”, conta.
Ninguém educa ninguém
Para começar, Conrado cita uma expressão do educador Paulo Freire, em seu livro A Pedagogia do Oprimido: ninguém educa ninguém. E mesmo se educasse, é difícil fazê-lo dentro de uma empresa. O processo de aprendizagem foi, na sua opinião, reduzido a um processo muito simplista. “Nós temos um problema, fazemos um workshop de oito horas, um e-learning de uma hora e achamos que isso vai virar aprendizado”, afirma.
Colocar as pessoas na sala de aula, contínua, mal funciona para crianças e adolescentes. Imagina para adultos. A ação de aprendizado precisa levar em consideração a necessidade da pessoa. Sem necessidade, não tem aplicação de conhecimento. Sem aplicação de conhecimento, não tem aprendizado. “Você precisa de três coisas para aprender: vontade, tempo e energia. As pessoas não têm nenhuma delas”, diz.
Ele tem um gráfico separado em quatro quadrantes. O eixo horizontal representa onde o aprendizado ocorre. Em ambientes formais, como sala de aula, ou informais, como reuniões e projetos. O vertical, quem conduz e propõe o aprendizado: a empresa, com treinamentos obrigatórios, ou os aprendizes, buscando livros por conta própria para ler na condução, por exemplo. As empresas de RH, afirma, têm foco muito grande no quadrante que reúne ações propostas pelas empresas e em ambientes formais.
Segundo um relatório da Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento publicado em dezembro de 2023, o tempo médio de treinamento por colaborador no Brasil é de 23 horas por ano. O que dá menos de meia hora por semana. “O aprendizado vai se dar no dia a dia. Como estimulamos a autonomia e como vamos reconhecer e valorizar o aprendizado informal?”, questiona
Fricção
Além da Nōvi, Conrado também é palestrante e escreveu dois livros. O primeiro deles chama-se Lifelong Learners – o poder do aprendizado contínuo. O conceito é uma das missões da Unesco. Um dos seus sete institutos de educação é o “Instituto de Aprendizagem ao Longo de Toda a Vida”, que promove políticas com foco em ensino para adultos, alfabetização e educação informal.
Conrado continuou estudando formalmente. Fez um mestrado em Criatividade pela PUC de São Paulo, mais especificamente sobre o seu impacto em instituições bancárias, e um doutorado em Psicologia de Aprendizagem na USP. Não buscou esses cursos à toa. Eles ajudam, mas ser aprendiz contínuo não significa ser estudante contínuo. “É uma parte pequena do processo”, diz. Ele faz um paralelo com atividade física: “Imagina se você se exercitasse uma vez a cada dois anos? Fazer só uma pós-graduação e parar não adianta nada”, acrescenta. Uma outra parte batiza o seu segundo livro: Aprendizado Incidental ‒ o poder do lifewide learning.
Segundo ele, o aprendizado precisa de fricção. Entrar em contato com algo novo e que possivelmente incomode um pouco. “Aprendizado incidental é fazer uma escolha de vida de se expor a mais fricções. A arte produz fricção. Viajar e conhecer pessoas diferentes traz fricção”, explica. E, para ele, a mentoria traz fricção. “Uma conversa de mentoria permite esse aprendizado incidental”, afirma.
Mentoria inesquecível
Teve um mentorado que queria falar muito sobre como estruturar o aprendizado. Conrado passava alguns métodos, como, por exemplo, escrever um diário de aprendizagem, e ele anotava. O mentor se encantou por ver que todas as suas sugestões foram aplicadas e, nas sessões de retorno, ele voltava todo animado para contar como cada um havia impactado a vida dele. “Uma prática tão simples quanto escrever duas ou três vezes por semana as reflexões sobre como você aprendeu pode ser revolucionária. E, para ele, foi muito”, conta.



