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Mentores Fora de Série: Ângela Estellita Lins 

Por top2you

Um assunto sempre intrigou Ângela Estellita Lins: a quantidade de tempo que as pessoas passam dentro das empresas. Por isso, ela decidiu, ainda na universidade, que teria em sua carreira a missão de cuidar da vida corporativa de quem estava à sua volta para dar sentido ao trabalho e ajudá-las a não viverem presas às suas cadeiras.

Formada em Psicologia pela UFRJ, Ângela começou a carreira ainda na faculdade, estagiando no RH de uma empresa de petróleo, e depois assumiu a seleção em uma companhia de comércio exterior. No final dos anos 1970, conciliava trabalho e maternidade, experiência que lhe trouxe empatia para mentorar mulheres em situações semelhantes.

Ao longo das décadas, ela passou por empresas importantes, como a TV Globo e a Mesbla, além de multinacionais dos setores químico/farmacêutico e de gases industriais. Também foi diretora do BNDES em um período de situação adversa no governo federal e durante a pandemia.

Em todos esses desafios, ela identifica um fio condutor: “Prefiro ambientes em expansão e com problemas complexos para resolver. Sempre foi a motivação que eu procurei”, conta. Além da carreira executiva, dedicou-se à vida acadêmica (atualmente cursa um pós-doutorado) e à prática clínica como psicóloga. “Um profissional precisa se preparar para ser múltiplo”, acrescenta.

Primeiros passos

No começo dos anos 1980, Ângela fez uma especialização na área de saúde mental, algumas décadas antes do assunto ganhar a relevância atual. Ampliou seu campo de conhecimento e definiu que gostaria de atuar dentro das organizações. Trabalhou na TV Globo por quatro anos como analista e depois virou gerente na Mesbla, no período de expansão das lojas da varejista.

Na década seguinte, teve experiências em diversos setores: em uma holding de empresa financeira, navegação e trading, na indústria farmacêutica (GSK) e no jornal O Dia. Nesse período, Ângela buscava sempre lugares em mudança ou expansão acelerada. “Quando tudo já estava ‘certo’, meu interesse se voltava para uma nova oportunidade que me desafiasse, então eu aceitava a próxima proposta de emprego”, resume.

Essa fase terminou entre 1998 e 2000, quando ela assumiu a diretoria de RH para a América do Sul na AGA, uma empresa de gases industriais, e consolidou a vivência em transformações organizacionais de grande porte. Depois de fechar esse ciclo executivo, migrou para consultoria de desenvolvimento, transição de carreira e coaching. Além disso, aprofundou a vida acadêmica, com MBA, mestrado e doutorado em Engenharia de Produção.

Em diferentes períodos, ela também foi professora na COPPEAD (a escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro), na Fundação Dom Cabral e na PUC. Quando já não esperava retornar a uma posição executiva, surgiu em 2019 o desafio de assumir a diretoria de Pessoas e Cultura no BNDES, em um período de complexidade e transformações, seguido pela pandemia. 

Os desafios do BNDES

Por quase três anos, Ângela trabalhou construindo a primeira diretoria de pessoas e cultura no banco estatal. Segundo ela, era preciso implantar programas de desenvolvimento da liderança, coaching e fortalecer soft skills em equipes tecnicamente sólidas. Também havia uma grande demanda por temas sensíveis de RH, como relações sindicais, plano de saúde e previdência. E em 2020, a pandemia trouxe novas camadas de complexidade, colocando na agenda a assistência às pessoas, a transição para o trabalho remoto e o apoio à saúde mental.

Depois dessa experiência, Ângela voltou às consultorias, à vida acadêmica e às mentorias, ampliando sua atuação: retornou às atividades de mentoria e de consultoria, iniciou um pós-doutorado e retomou a prática clínica. Como mentora, sua filosofia parte do princípio de que muitas decisões de carreira são tomadas “de fora para dentro”, com os profissionais reagindo às oportunidades.

O trabalho dela é ajudar os profissionais a inverter o jogo e alinhar escolhas com o que a pessoa quer. Ela utiliza processos reflexivos para elevar o autoconhecimento no mentorado, ajudando-o a identificar fortalezas, limites e desejos. O objetivo é dar base para decisões mais conscientes. Outros eixos da sua prática são apoiar transições e tratar dificuldades recorrentes na vida corporativa, como relacionamentos e hábitos de gestão.

Nesse sentido, ela enfatiza a necessidade de atenção especial a mulheres que se colocam “naquela obrigação de sempre dar conta de tudo”. Ângela busca enfatizar que elas têm o direito de fazer suas escolhas e de colocar limites sem culpa.

Mentoria inesquecível

Ângela destaca as sessões que fez com uma jovem líder. Ela havia assumido um cargo sob a liderança de um novo gestor com quem não se identificava e que pouco a inspirava. “Ela precisava se adaptar rapidamente às novas expectativas do cargo, sem perder sua motivação e confiança”, conta. Depois de algumas conversas, dedicou-se a fortalecer a sua capacidade de vencer esse desafio, ver o seu objetivo com clareza e aumentar a segurança em si mesma. “Meses depois, ela não só se destacou, como conseguiu mais uma promoção. Me procurou novamente, feliz pela conquista, mas também interessada em refletir sobre seus próximos passos de carreira”, acrescenta.