Em cerca de três décadas na área comercial e de marketing, Claudia Abreu assumiu posições de liderança em empresas bem diferentes entre si, em áreas que vão da tecnologia a bens de consumo e varejo. Não é uma das carreiras mais típicas.
Hoje, ela se divide entre várias funções. Atua como diretora de vendas em uma grande consultoria, participa de conselhos de empresas, dá aulas na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e realiza mentorias.
Claudia sempre foi determinada e sabia que queria estudar em uma universidade pública – as mais difíceis de entrar naquela época. Queria trabalhar com proteção ambiental dentro das empresas e entrou na faculdade de Ecologia na Unesp.
No entanto, ao chegar ao curso, percebeu que os alunos tinham um viés muito voltado para pesquisa acadêmica, enquanto ela buscava uma carreira corporativa. Decidiu prestar vestibular novamente e desta vez entrou na UFRJ no curso de Administração de Empresas. Havia um processo de seleção para entrar no programa de estágio da Shell (a companhia não contava com um programa de trainees).
Claudia, então, se preparou para o processo: 2 mil candidatos para 100 vagas de estágio. Ela teve a ideia de buscar um serviço de clipping para ler tudo o que havia saído na imprensa sobre a companhia, já que na época não existia internet, e chegou pronta na entrevista. Deu certo. Depois de oito meses, dos 100 estagiários, três foram escolhidos para serem entrevistados e Claudia foi contratada.
Ela começou na área de finanças calculando os custos de headcount mas já buscava direcionar a carreira para marketing e vendas. Na sequência, Claudia trabalhou na Monitor Group, por um ano, e outro na Ericsson, até ter a oportunidade de trabalhar na Microsoft. Na Microsoft, trabalhou em diversas áreas, como vendas e estratégia de canal, até chegar a ser diretora de marketing para fabricantes de computadores.
Lá o desafio era enorme: aumentar a penetração de Windows no mercado brasileiro enquanto o governo incentivava fortemente o uso de software livre. “A Microsoft já tinha cerca de 90% de marketshare no segmento corporativo e a oportunidade estava no varejo, pois tinha um índice de pirataria muito alto”, conta. Na época, o mercado de computadores no varejo tradicional basicamente não existia.
Claudia, então, desenvolveu um novo canal através das grandes redes varejistas, como Casas Bahia, Ponto Frio e Fastshop. Usando material de ponto de venda adequado à linguagem do consumidor final, treinamento para os vendedores e investimento em mídia, as redes passaram a revender laptops com Windows pré-instalado. “As ferramentas para gerar demanda, principalmente com a classe C, funcionaram e o projeto deu super certo”, conta.
Em dois anos, a venda de Windows no varejo foi quintuplicada e Claudia ganhou um prêmio mundial da Microsoft, o Most Valuable Professional. Ela tem orgulho especial da conquista por saber que quem comprava o Windows original nas lojas eram pessoas comuns, que viam o notebook como uma possibilidade de acesso a um futuro melhor.
Depois da experiência na Microsoft, Claudia focou sua carreira em varejo e em bens de consumo, trabalhando em empresas como L’Oreal, Estée Lauder e Kipling. Também atuou como CEO da rede de produtos saudáveis Mundo Verde e como diretora da Salesforce. Agora ela atua em conselhos com o objetivo de ajudar as empresas a terem longevidade, montando estratégias de crescimento, além de realizar as mentorias.
Foco em habilidades e propósito
Claudia estrutura as suas mentorias com a avaliação dos profissionais em três níveis: no que são bons, no que precisam melhorar e no que não fazem bem – mas que tem pouca importância para o avanço de suas carreiras. Esse último ponto tem uma abordagem específica. “A maioria dos gestores foca em desenvolver o que a pessoa não é boa, independentemente da análise de relevância para a função exercida ou o plano de crescimento”, explica.
Claudia prefere focar onde estão as habilidades das pessoas. Seu objetivo é ajudar os mentorados a desenvolverem o autoconhecimento para que possam definir sua marca pessoal, onde moram seus talentos, propósito e, assim, escolher possíveis caminhos em suas carreiras.
Mentoria inesquecível
Um caso de mentoria marcante para Claudia foi junto a um gerente sênior de uma grande empresa de telecomunicações. Ele estava passando por um momento de grande pressão profissional com desafios na gestão de conflitos e networking. O primeiro passo foi garantir que esse mentorado desenvolvesse estratégias para se auto-gerenciar, como, por exemplo, levar o foco na respiração. Em seguida, foram desenvolvidas as habilidades de escuta ativa e busca por objetivos comuns com os diferentes interlocutores. A compreensão do impacto da sua e das demais áreas na performance global da empresa garantiu o alinhamento da execução. “Atualmente, esse mentorado é tido como referência na busca por soluções colaborativas”, afirma.



