A trajetória profissional de Marcello Ursini pode ser dividida em três capítulos. O primeiro foi construído em multinacionais de renome, atuando sempre com foco em marketing. O segundo foi no empreendedorismo digital. E o terceiro, que representa sua fase atual, une mentoria, coaching e psicoterapia. Nesta etapa, Marcello dedica-se especialmente a dois desafios que atravessam a vida de muitos líderes: a crise da meia-idade e as transições no fim da carreira.
Formado em Administração pela Fundação Getulio Vargas, com ênfase em marketing, Marcello iniciou sua jornada em 1992 no programa de trainees da Quaker. Após três anos, recebeu uma bolsa para cursar MBA na Pepperdine University, em Malibu. De volta ao Brasil, em 1997, foi contratado pelo programa de expatriados da Johnson & Johnson.
Durante oito anos, dividiu sua atuação entre o mercado brasileiro e o latino-americano. Nos três primeiros anos, mergulhou na realidade local; nos cinco seguintes, ajudou a desenhar estratégias regionais de produtos e comunicação para diferentes países. Sua trajetória o levou a alcançar o cargo de gerente sênior de marketing, consolidando-se como um executivo de impacto.
Em 2005, Marcello foi contratado como gerente de marketing corporativo da Heineken, com foco especial na Kaiser, da qual a cervejaria holandesa era acionista. Sua passagem por lá foi breve – apenas um ano e meio – até receber o convite da Diageo para assumir a gestão de Johnnie Walker.
Por lá, foram quatro anos intensos de aprendizado e conquistas. Essa experiência encerrou a primeira fase de sua carreira. Marcello percebeu que já não se sentia motivado e estava especialmente incomodado com as limitações impostas ao marketing de bebidas alcoólicas. Queria ir além, explorar novos territórios e encontrar espaço para a inovação. “O único lugar em que era possível inovar de verdade naquela época era no digital”, recorda.
A descoberta do digital e da comunidade criativa
O ponto de virada veio por meio de um amigo da TIM, que o convidou a conhecer a H-Farm, uma incubadora de startups localizada em Treviso, na Itália. Marcello decidiu tirar férias da Diageo e passou uma semana mergulhado no ecossistema de inovação, avaliando diferentes negócios.
Foi ali que se encantou pela Zooppa, uma plataforma de marketing baseada em uma comunidade de criativos – em sua maioria pequenas produtoras de vídeo. A dinâmica era a seguinte: as marcas publicavam um briefing, lançavam um concurso e ofereciam prêmios de até 100 mil dólares para os melhores vídeos produzidos.
Em 2009, Marcello decidiu trazer a Zooppa para o Brasil. Superando o desafio de criar do zero uma comunidade de criativos e produtores de vídeo, aos poucos, a plataforma começou a conquistar clientes de peso, como Sky, Greenpeace e Unilever. Mas a inovação trouxe resistência. “Havia muito conflito com as agências brasileiras que não queriam veicular os vídeos”, relembra. “Existia um receio de perder a criação, e por consequência perder a mídia.”
Foi nesse contexto que Marcello tomou a decisão de montar a YouCreate, uma plataforma com conceito semelhante, mas voltada para pequenas e médias empresas que não tinham acesso a agências tradicionais. A demanda ia além de vídeos e incluía logotipos, websites e outros serviços de comunicação. “Na Zooppa, uma competição da marca AXE podia envolver 100 mil dólares, com comissão de 20%. Já na YouCreate, o preço de um logotipo era mil reais”, compara. Com a entrada de um investidor para apoiar a escalabilidade do negócio, Marcello estruturou a empresa, contratou um CEO e passou a atuar no conselho. Em 2015, vendeu a YouCreate, marcando o fim de um ciclo.
A partir daí, começou a ser convidado para apoiar outros negócios, especialmente em suas iniciativas digitais. Assumiu a posição de CEO da Bem Mais Seguro, entre 2013 e 2017, e depois da Filóo Saúde, de 2017 a 2019. Sua última experiência como executivo ocorreu à frente da Vigilantes do Peso no Brasil. O momento foi estratégico: em 2017, quando a apresentadora estadunidense Oprah Winfrey adquiriu participação na matriz, as ações dispararam, e a empresa aproveitou para recomprar franquias. Marcello foi contratado com a missão de transformar a operação brasileira em uma subsidiária integral, liderando um processo de transformação estrutural e cultural.
Na pandemia, o Brasil, antes visto como o “patinho feio” da operação, tornou-se a primeira unidade 100% digital da companhia. Mas o avanço foi interrompido de maneira inesperada. “Pouco depois, o Ozempic foi lançado e nos matou”, recorda Marcello, referindo-se ao impacto do novo medicamento no setor de controle de peso. Esse capítulo abriu espaço para a terceira e mais recente fase de sua carreira. Depois de ter buscado formações específicas em mentoria, coaching e psicoterapia, ele apoia executivos em crise da meia-idade e na transição de fim de carreira. “Essas dores não são muito atendidas”, afirma. “As alavancas que movem os executivos no passado – carreira, dinheiro, sucesso – perdem o sentido. Hoje, o que me dá propósito é poder ajudar o próximo a atravessar essas transições com mais consciência e equilíbrio.”
Mentoria inesquecível
O mentorado era líder de uma operação em Manaus, quase um CEO, mas estava com dificuldades. Chegou na sessão e pediu especificamente que Marcello indicasse alguns livros. “Ele me pediu antes, então eu pesquisei alguns livros de que eu gostava, levei para ele e expliquei o que cada livro fazia”, conta. “Então, foi diferente. Essa foi legal porque a gente falou sobre bons livros e boas influências. Eu gostei bastante”, diz.



