Italiano de Bologna, Marco Dalpozzo descobriu cedo que o seu papel na vida não seria ficar parado na cidade em que nasceu. Ao contrário, ele pretendia conhecer o mundo, desbravando continentes que jamais poderia pensar de antemão. O que ainda não sabia, na sua juventude nos anos 1980, quando sonhava em ganhar o mundo, era que o desenvolvimento organizacional e o RH seriam o seu passaporte.
Enquanto isso, ele, filho de ferroviário, aproveitou as passagens gratuitas de trem para conhecer inúmeros países da Europa na juventude. Foi nesse período que ele começou a velejar, o que, garante, foi fundamental para se manter próximo da natureza.
A vida, no entanto, não é feita só de turismo e aventuras, e, chegando à idade universitária, Marco decidiu fazer o curso de Economia, na Universidade de Bologna. Ele trabalhou como professor de natação para pagar o curso universitário.
Na sequência, com uma bolsa de estudos da própria faculdade, fez um mestrado em Desenvolvimento Organizacional pela SDA Bocconi, em Milão, e começou a sua carreira profissional na Unilever, em 1987, como especialista em treinamento e desenvolvimento.
A queda do Muro de Berlim em 1989, foi um momento importante nas escolhas de carreira dele. Em 1991, Marco foi chamado para um projeto ambicioso de integração continental: a Unilever, que atuava em 17 países, e queria aproveitar o início da globalização para se tornar, de fato, uma só companhia em termos de operação e cultura. “Eu me encantei por aquele desafio e tive a certeza de que era a chance que eu procurava para ser um cidadão global”, conta. Após essa experiência entre Milão e Bruxelas, ele pediu para atuar fora da Europa e teve a oportunidade de vir para o Brasil em 1993.
Criando raízes
Quando a Unilever comprou a Kibon, Marco foi o escolhido para liderar a integração cultural da marca no país. De 1997 a 2002, ocupou cargos de liderança em RH, incluindo o posto de diretor de RH da operação de sorvetes, primeiro do Brasil e depois da América Latina – coordenando a consolidação de aquisições em países como Argentina, Chile, Colômbia e Equador, além da Kibon Brasil.
Em 2002, com raízes já firmadas no Brasil – onde constituiu família – assumiu a diretoria de RH e comunicação da Parmalat. Viveu ali o intenso processo de reestruturação da companhia e, posteriormente, a crise global da marca.
Após essa experiência intensa de transformação, recebeu o convite, no segundo semestre de 2004, de ingressar na Vale (na época, Vale do Rio Doce). Mudou-se de São Paulo para o Rio de Janeiro para assumir a diretoria global de desenvolvimento organizacional e RH, em um momento em que a empresa se reposicionava como player internacional após a privatização. “Nosso desafio era transformar a Vale em uma companhia global. Isso exigia mudar a cultura de toda a organização”, conta.
Permaneceu na mineradora até 2009, atravessando também a crise econômica de 2008. Após um período sabático, voltou ao mundo corporativo em 2010 para assumir a diretoria de RH da L’Oréal Brasil. O objetivo era ajudar a companhia francesa a depender menos de fora e formar lideranças brasileiras. “Na época, contratamos e desenvolvemos vários executivos brasileiros, entre eles o Marcelo Zimet, que hoje é o primeiro presidente brasileiro da L’Oréal no país. Esse era o nosso projeto”, explica.
Em 2014, decidiu abrir mão do mundo corporativo para criar sua consultoria e, ao mesmo tempo, empreender no litoral nordestino com uma pousada voltada à sua grande paixão: o vento e o mar. Como ficar longe do RH e do desenvolvimento de executivos não era uma opção, Marco criou a Escola Ecoar, projeto que promove vivências com líderes e executivos em meio à natureza. “É um convite à escuta, à humildade e à reconexão com o essencial”, diz.
Entrada no futebol
Em 2018, Marco recebeu um convite inesperado: assumir a direção de recursos humanos da Confederação Brasileira de Futebol e liderar a recém-criada CBF Academy, unidade educacional da entidade.
“Foi uma convocação. Não era como se eu desconhecesse o mercado, já tinha trabalhado na organização da Copa do Mundo de 1990, mas um projeto desse tamanho seria muito desafiador”, relata. Ficou na entidade até julho de 2021, tendo atravessado a pandemia e diversos desafios, com dilemas sobre a realização de jogos em meio a conflitos entre diretrizes sanitárias e pressões políticas.
Com tantos anos de estrada, Marco decidiu compartilhar a sua experiência como mentor. Para ele, é uma função fundamental para quem busca melhorar a sua trajetória. “Gosto de ajudar os líderes a entenderem seu papel estratégico nas organizações. Não é só sobre metas, é sobre sentido e responsabilidade”, diz.
Mentoria inesquecível
Marco guarda com carinho dois casos especiais. Um deles, uma espécie de mentoria invertida: um líder poderoso, no auge da carreira, o procurou para conversar sobre sua aposentadoria antecipada. “Foi um momento de troca verdadeira. Ele tinha tudo, mas precisava de um lugar para colocar suas dúvidas, alguém com quem dividir esse rito de passagem”, lembra. O outro foi uma mentoria com uma pessoa em estado de vulnerabilidade extrema, atravessando uma crise séria de saúde. “Aquela pessoa não precisava de um plano de ação. Precisava de um lugar seguro para existir. E a mentoria foi esse espaço”, conta.



