A vida de Marina Sachs mudou completamente depois de seu estágio de seis meses no acelerador de partículas Pelletron.
Na época, ela cursava Física na Universidade de São Paulo (USP) e passava as madrugadas, sozinha, no quinto subsolo do prédio da faculdade, observando o funcionamento da máquina para acompanhar um feixe de íons. Qualquer mudança, ela precisava avisar os responsáveis. “A pesquisa tentava achar uma partícula impossível de ser vista e, naquele momento, pensei que poderia passar a minha vida inteira sem encontrar nada”, relembra.
A experiência fez com que ela refletisse sobre a sua escolha profissional e desistisse de vez da pesquisa científica. Ela pensou em dar aulas, mas ainda não era isso que ela procurava. A mãe de Marina era professora e a profissão não era valorizada. Seu pai, da área de recursos humanos da Volkswagen, deu um conselho. “Ele disse algo que me fez pensar: ‘A faculdade de física vai te ajudar a desenvolver raciocínio lógico. Você vai poder aplicar isso em qualquer área de atuação como um diferencial’. Ele estava certo”, conta.
Um novo começo
Foi assim que ela recomeçou a sua caminhada profissional, agora no marketing. Para conseguir um emprego, ela ouviu muitos ‘nãos’ de empresas estupefatas ao ver um físico interessado no setor. Marina não desistiu até ser contratada pela fabricante de doces italiana Ferrero, que entrava no Brasil, como assistente de gerente de marca.
Para a sorte de Marina, a empresa valorizava mais o perfil e o potencial do profissional do que a experiência. No mesmo ano ela iniciou uma pós-graduação na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Dois anos depois, ela foi contratada para ser gerente de marca na Procter & Gamble. “Foi um movimento lateral, mas foi uma escola de marketing para mim. Era o diploma que eu precisava”, destaca.
Ficou quatro anos e foi contratada pela farmacêutica Bristol Myers Squibb, onde atuou como gerente de marca e de marketing. Cinco anos mais tarde, foi contratada pela Johnson & Johnson, primeiro como gerente de marketing e, depois, como diretora de produtos farmacêuticos de venda livre (OTC) para a América Latina. Ao todo, foram sete anos na companhia.
Nesse período, ela enfrentou um dos maiores desafios de sua vida. Jovem e com dois filhos pequenos na época, de sete e três anos, Marina foi confrontada com uma situação de saúde desafiadora que a levou a uma jornada de autoconhecimento e redefinição de valores. “Foi um momento muito difícil. Achava que minha vida e minha carreira tinham acabado”, lembra. Ela conseguiu tirar uma licença para se cuidar.
Alguns meses depois, retornou ao mercado e foi contratada como diretora de marketing na fabricante de produtos para animais de estimação Mars. Na empresa, também cuidou da área de vendas por um ano. A Mars, contudo, representou o passo internacional na carreira de Marina.
Em 2015, ela assumiu o cargo de vice-presidente de marketing para América Latina e mudou-se com a família para Miami, nos Estados Unidos. Foram quase cinco anos na cadeira, até que chegou a pandemia, em 2020, e a empresa resolveu enxugar seu quadro de executivos sêniores na América Latina e na Ásia.
Marina decidiu que não queria mais voltar para o Brasil e, aproveitando o seu green card, decidiu se recolocar nos EUA. Foi contratada pela farmacêutica Boehringer Ingelheim, cuidando do marketing estratégico para a franquia de antiparasitários, em alcance global. E, em novembro de 2024, foi promovida e mudou-se para a Alemanha, sede da empresa, onde vive atualmente.
Sem fórmula pronta
Além do mundo corporativo, Marina é mentora há cinco anos. Por ter conseguido conciliar uma carreira de liderança com a vida familiar, ela costuma ser procurada por mulheres que têm dúvidas sobre como seguir esse caminho. Ela destaca que tudo depende de um bom planejamento.
“Não é fácil, mas é possível. Acho que ajuda muito quando a gente tem exemplos e pode conversar com alguém”, diz. Segundo Marina, não existe uma fórmula para lidar com os profissionais nas mentorias. Cada situação apresentada é diferente e serve como aprendizado.
Ela acredita que o briefing fornecido, por exemplo, muitas vezes já não representa mais os anseios daquela pessoa. Por isso, sempre busca conversar no início da sessão para entender quais são as questões mais importantes. Marina gosta de fazer questionamentos que levam a pessoa a refletir e a se enxergar. Em muitos casos, isso serve para ajudar o profissional a ganhar autoconfiança. “Geralmente, a pessoa não enxerga que é boa. Ao ouvir um mentor, que ouve de fora da situação, é mais fácil mostrar isso”, ressalta.
Mentoria inesquecível
Marina destaca uma mentorada, de 30 anos, de uma mineradora, que acabava de ser promovida a supervisora. A promoção significava mudar-se com a família para o Pará, seu filho pequeno teria que mudar de escola e o marido teria que buscar outro emprego. Ela também estava preocupada por ter que gerenciar uma equipe só de homens e mais velhos. Aos poucos, Marina mostrou por que esse movimento era importante para a sua carreira e indicou estratégias para equilibrar o novo momento com a sua família. Isso deixou a mentorada pronta para enfrentar o desafio. “Se você não experimentar, não vai saber”, destaca.



