Nascido em São João da Boa Vista, pequena cidade paulista na divisa com Minas Gerais, Marco Gallo se mudou para São Paulo quando ainda era criança, acompanhando a irmã do meio que iria começar a faculdade na capital.
O sonho da sua família era que ele se tornasse médico. Marco, no entanto, hesitava. Ainda assim, prestou vestibular para Medicina e passou. Só que, no caminho para se matricular na Unesp em Lins, no interior de São Paulo, ele desistiu da matrícula.
Marco decidiu trabalhar no mundo corporativo. O pai, dono de uma granja, já havia falecido, então foi para o irmão, 20 anos mais velho, que Marco teve que dar a notícia. “E foi um Deus nos acuda. Ficaram em choque, falaram para eu sair de casa… Mas, aos poucos, compreenderam”, conta.
Marco, então, prestou o vestibular para Administração de Empresas e entrou na FAAP. Quando estava do sexto para o sétimo semestre da faculdade, encontrou um anúncio para ser estagiário na Credicard. Foi contratado, mas para a área de finanças ‒ mais próxima do seu sonho, mas, ainda assim, outra função que não queria exercer. No fim do estágio, contudo, foi enviado para vendas e gostou bem mais da experiência.
Quer um cartão?
Formado, em 1986, foi contratado como analista de vendas da Credicard. Em três anos, foi promovido para gerente e, depois, superintendente. Foi escolhido para trabalhar com o Fiat Mastercard e teve uma ideia ambiciosa ‒ reduzir o processo de 40 dias entre o cliente pedir o cartão e ele chegar em sua casa.
Marco criou um projeto para fazer emissões in loco no salão do automóvel. “O pessoal da Credicard ficou desesperado. Falou que eu era doido”, lembra. Por sorte, um dos seus chefes acreditou no projeto e deu o suporte. Marco pôs as mãos na massa e passou três meses no stand da Fiat, em um espaço de 80 metros quadrados, com um celular, artigo raro na época, para conversar com a central e aprovar os novos cartões. “Foi um sucesso. Acho que acabamos fazendo 12 salões de automóvel em dois anos”, afirma.
Em 2000, ele saiu para ser diretor de vendas e marketing da Mastercard. Foi passando por diversas áreas em uma empresa que empregava então apenas 22 funcionários, com destaque para o longo período em marketing, vendendo cartão de crédito e ativações.
Em 2002, foi para a área de credenciamentos como diretor de aceitação da Mastercard, e sua principal função era convencer os estabelecimentos a aceitarem a bandeira e os bancos a emitir os cartões. Foram 15 anos na empresa.
Em 2015, foi contratado pela American Express para ser vice-presidente de negócios. A sua missão era convencer mais bancos a emitir os seus cartões, mas não o avisaram que o principal produto da Amex, o cartão Centurion, era exclusividade do Bradesco. “Só me contaram uma parte da história. Eu não podia dar o Centurion para os outros bancos”, conta. Ainda teve a oportunidade de ser presidente da operação brasileira por mais um ano, antes de sair da American Express.
Marco, então, optou por fazer uma pausa. “Eu sabia muito bem o que eu não queria. Não queria abrir uma loja de chocolate ou de roupa. Queria algo que tivesse a ver com os meus 30 anos de experiência”, diz. A oportunidade veio por meio do seu genro, um estudante da Sorbonne, que, vendo os pais tendo dificuldades para pagar contas com vencimentos diferentes e em plataformas diferentes, trabalhava em um projeto de aplicativo que concentraria todas elas em um único lugar.
Empreendendo
A Contaí foi fundada em 2021, durante a pandemia, para ajudar os clientes a pagarem contas. As empresas, contudo, tinham resistência ao modelo, queriam que os clientes acessassem o seu próprio aplicativo. Para rebater, encomendaram uma pesquisa que dizia que grande parte da população não tem memória no celular para ter tantos aplicativos.
Reajustaram a proposta da empresa ao notar que os únicos apps sempre presentes são WhatsApp, navegadores e aplicativos bancários. Agora chamada Conta Comigo, a empresa virou um app de infraestrutura que conecta as concessionárias de serviços públicos aos bancos. Está lá até hoje.
Ele não foi atrás das mentorias, mas, quando a ideia chegou, achou a proposta interessante. Já tinha experiência nos seus tempos de Mastercard e American Express, nos dois lados da conversa. “Eu tenho mentoria com pessoal de banco, utilities, com a Vale. Isso acaba abrindo a nossa cabeça”, afirma. “E, querendo ou não, tanto faz fazer uma mesa de madeira ou outra coisa. São processos. Líderes que lideram outras pessoas. Isso é relacionamento”, acrescenta.
Mentoria inesquecível
Um funcionário da Vale, alocado em uma pequena cidade no Pará, marcou duas sessões de mentoria com Marco. O mentor ficou fascinado em descobrir como a operação funcionava. “É uma cidade da Vale mesmo. É outro mundo, você fica isolado ali”, conta. Líder, o mentorado havia saído de Minas Gerais, mas estava tendo problemas de relacionamento com uma pessoa que “não ia muito com a cara dele”. Por conta do contexto, eles se encontravam o tempo todo. “Em São Paulo, você só encontra no trabalho oito horas por dia. Eu comecei a me colocar no lugar dela e pensei: como que eu viveria nesse lugar?”. As conversas giraram em torno de estratégias de relacionamento para lidar com essa situação.



