Você está em uma reunião importante. A CEO está falando sobre um projeto que exige sua atenção quando chega uma notificação no canto da tela: uma nova mensagem.
Você não abre. Mas viu.
E isso já basta para a cabeça começar a trabalhar: Deve ser uma cobrança daquela proposta que eu ainda não respondi. Ou será que é outra falha de sistema? Talvez seja meu pai, será que é importante?
Você continua olhando para quem fala. Balança a cabeça de vez em quando. Mantém a expressão de quem está acompanhando.
Ninguém percebe.
A reunião continua. A sua presença, não. Você não está mais ali.
Nossa atenção oscila naturalmente. O problema é que, em um mundo em que somos constantemente interrompidos e chamados a mudar de foco, pode ficar cada vez mais difícil perceber quando nos desconectamos de uma atividade e como voltar para ela.
O alto custo da falta de presença
Estar presente é estar realmente envolvido com o que está acontecendo naquele momento. Porém, é comum não conseguir manter um estado de presença completa o tempo todo.
A pesquisa Conveying and Detecting Listening During Live Conversation, publicada no Journal of Experimental Psychology, ajuda a colocar esse tema em perspectiva.
Em cinco estudos com 1.225 participantes, pesquisadores observaram que, em média, as mentes se afastavam das conversas cerca de 24% do tempo. Mais interessante: quem estava falando frequentemente acreditava que o outro realmente prestava atenção, mesmo quando não estava.
Isso acontece porque somos muito bons em parecer presentes, mesmo quando não estamos. Podemos manter contato visual, concordar e até reagir nos momentos certos. O corpo continua na conversa enquanto a cabeça já está em outro lugar.
Mas o problema não é apenas perder uma informação.
Quando a atenção está fragmentada, também ficamos mais suscetíveis a perder aquilo que não aparece imediatamente na superfície: uma mudança de tom, uma hesitação, uma contradição, uma informação que só ganha significado quando conectada a outra que veio antes.
É justamente aí que a presença começa a importar para além da qualidade de uma conversa.
Pensar bem depende, em grande parte, de conseguir permanecer tempo suficiente diante de uma situação para compreendê-la.
No trabalho, isso significa mais do que receber informações. É preciso interpretá-las. Ler cenários, fazer perguntas, considerar perspectivas e desdobramentos diferentes, perceber sinais e identificar aquilo que ainda não está completamente formulado.
Para uma liderança, isso é ainda mais crítico. Nem sempre a questão mais importante é a que chega primeiro. Um liderado pode trazer um problema aparentemente operacional quando, por trás dele, existe uma dificuldade de relacionamento, uma insegurança ou uma decisão política.
Se estamos apenas reagindo ao que aparece na superfície, sem estar realmente presentes para avaliar situações com discernimento real, podemos resolver o problema errado.
Presença também pode ser treinada
Se presença é tão importante, será que podemos desenvolvê-la?
Perceber que não estamos presentes já é parte do exercício.
Se uma notificação puxou sua atenção, se um pensamento começou a ocupar espaço ou se uma interrupção tirou você do que estava fazendo, não é preciso se culpar e lutar para “voltar a se concentrar” imediatamente.
Reconheça o desvio, encerre mentalmente aquilo que ficou pendente e traga a atenção de volta para a atividade ou a conversa que estava diante de você.
A presença também está nesse movimento de retorno. Não em nunca se distrair, mas em perceber a distração antes que ela conduza o restante da experiência.
E quando a interrupção deixa uma pendência — “preciso responder aquela mensagem”, “não posso esquecer de fazer aquilo” — fazer uma anotação ou colocar um despertador no celular também pode ajudar a tirar a preocupação da cabeça e colocá-la em algum lugar.
O objetivo não é resolver naquele momento, mas dar ao cérebro uma referência de que aquilo não será perdido. Com esse espaço liberado, fica mais fácil voltar ao que realmente importa agora.
E se você busca um espaço para treinar presença e organizar desafios, próximos passos e ações de desenvolvimento, a mentoria é o melhor lugar para esse exercício.
Uma sessão envolve duas pessoas em uma conversa de uma hora, muitas vezes sem uma relação anterior. Quem está sendo mentorado pode chegar com muitos desafios e pouca clareza sobre por onde começar. Do outro lado, quem mentora é tentado a querer formular uma resposta antes de escutar toda a história ou dar conselhos considerando o próprio contexto e não o da pessoa mentorada.
Nos dois casos, existe um desafio de permanecer inteiramente na conversa, ouvindo, organizando, perguntando e refletindo.
Por isso, a mentoria é um exercício de presença para os dois lados.
A mentora Jac Lopes, que tem mais de 25 anos como executiva em grandes empresas e é CEO do Movimento Idade é Potência, percebe essa presença quando a pessoa “escuta de verdade, pensa antes de responder, faz conexões com a própria experiência e consegue retomar algo que foi dito alguns minutos antes”.
Jac conta que também exercita sua presença principalmente quando conhece muito bem o tema abordado pelo mentorado. “Tenho vontade de entrar logo com uma história ou uma resposta. Mas tenho treinado fazer uma pergunta antes, ouvir mais um pouco e só depois compartilhar o que vivi ou penso”, explica.
A mentora Tamara Dzule, que é executiva de finanças e negócios, concorda e reforça: “Presença é interesse e troca. Se vira um monólogo não é interessante ou uma troca. Tão simples quanto isso.” Para ela, perguntas abertas são uma das formas de recuperar essa troca quando percebe que a conversa começa a se concentrar demais em um dos lados.
Cadu Lemos, autor, pesquisador e especialista em Flow, por sua vez, acredita que a presença pode ser preparada antes de abordar o tema principal do encontro. “Um momento breve de check-in no início ajuda a alinhar mentor e mentorado. Esse intervalo facilita o processo, desanuvia o pensamento que salta de um assunto para outro e abre espaço para o que vem depois. É dali que a conversa passa a fluir, de um lugar genuíno e espontâneo.”
Presença não depende de conseguirmos silenciar completamente a cabeça. Depende de desenvolvermos a capacidade de perceber para onde ela foi e trazê-la de volta.
Em um mundo com cada vez mais estímulos, preocupações, notificações e demandas disputando nossa atenção, a habilidade de nos fazer presentes em nossas conversas, atividades de trabalho e nos momentos de lazer é uma das habilidades humanas que mais precisamos preservar.



