Das big techs aos pequenos empreendedores, a inteligência artificial já faz parte da realidade dos negócios. Em diferentes níveis, empresas de todos os portes estão incorporando a IA à rotina, automatizando tarefas e experimentando novas formas de trabalhar.
Mas, enquanto a atenção se volta para as ferramentas e para o potencial de ganho de eficiência, uma pergunta merece mais espaço: como essa transformação está mudando as pessoas?
Foi a partir dessa provocação que os mentores Luiz Faray, especialista em transformação digital e advisor no Google, e Alexandre Dedavid, executivo de Dados, IA e Produtos Digitais, conduziram uma roda de conversa do RH do Futuro, programa intercompany da Top2You, que reuniu mais de 100 participantes.
O encontro trouxe reflexões sobre mudanças que já estão acontecendo nas organizações e sobre o que o RH precisa perceber para se preparar e preparar outras pessoas para esse novo cenário.
Tecnologia depende das pessoas para gerar valor
Ainda existe uma distância entre experimentar a tecnologia e gerar resultados com ela. Para Luiz Faray, essa diferença passa diretamente pelas pessoas.
Segundo ele, embora muitas organizações estejam investindo em IA, ela, por si só, não garante retorno. “A gente fala muito em empresas AI-first, mas o novo desenho organizacional precisa ser human-first. São as pessoas que vão fazer, de fato, o retorno acontecer. Quando surge uma onda de novas tecnologias, a pauta vira a tecnologia e a gente acaba esquecendo um pouco do fator humano”, explica.
A provocação é importante porque, no entusiasmo com as possibilidades da IA, as organizações podem acabar colocando a ferramenta no centro da transformação e deixando em segundo plano quem precisa fazê-la funcionar.
O retorno do investimento depende da capacidade dos profissionais de usar esses recursos para resolver problemas, tomar decisões melhores e transformar processos.
Essa mudança exige atenção à maneira como a adoção é conduzida. Não basta comunicar que a empresa vai passar a usar um novo instrumento. É necessário mostrar às pessoas o que muda no trabalho delas e por que vale a pena incorporar novas ferramentas.
Faray chamou a atenção justamente para esse ponto: as pessoas tendem a usar uma tecnologia quando conseguem enxergar algum benefício pessoal. Para o RH, isso significa ajudar a construir uma narrativa que conecte os objetivos da organização às necessidades de quem está na operação.
A adoção depende também da coerência entre o discurso e as decisões da liderança. “A liderança pode dizer que vai posicionar as pessoas em tarefas mais estratégicas, de supervisão, enquanto a IA fará o trabalho mais operacional. Mas, na prática, há empresas promovendo cortes de posições em busca de resultados de curto prazo, sem levar em consideração a necessidade humana”, alerta.
A adoção começa pela pergunta certa
Alexandre Dedavid trouxe a discussão para uma situação vivida em uma mentoria. Um líder estava enfrentando dificuldades para fazer sua equipe usar IA.
“A gente chegou a um ponto em que a habilidade que ele precisava desenvolver era a escuta ativa e a capacidade de abrir espaço para o time. Ele estava tão empolgado com o assunto que metralhava a equipe com informações, e as pessoas se sentiam acuadas”, diz o mentor.
O caso ilustra como uma iniciativa bem-intencionada pode produzir o efeito contrário quando não considera a perspectiva de quem precisa mudar. Mais do que aumentar a quantidade de informações, o líder precisava ouvir a equipe, compreender suas dificuldades e criar espaço para que as pessoas participassem do processo.
A reflexão de Alexandre se conecta a um desafio importante para o RH: antes de perguntar como ampliar o uso de IA, é preciso entender qual problema a organização quer resolver e por que aquela ferramenta faz sentido naquele contexto.
“A tecnologia é relevante, é transformadora. Eu sou adepto, uso no trabalho e na vida pessoal. Mas precisamos voltar às premissas iniciais: qual problema estou resolvendo? E como mudam os papéis das pessoas e a estrutura organizacional nesse cenário?”, reflete.
A tecnologia pode ser o ponto de partida, mas a transformação que acontece no trabalho e nas relações que o sustentam precisa receber mais atenção.
Transformar o trabalho também é transformar pessoas
Se a automação muda as atividades realizadas e a própria dinâmica das organizações, ela também muda o que se espera dos profissionais.
Tarefas antes executadas manualmente passaram a ser feitas por sistemas, enquanto outras exigem mais capacidade de análise, senso crítico e tomada de decisão.
Isso significa que quanto mais as atividades se transformam, maior é a importância de preparar os profissionais para as novas demandas.
Nesse cenário, o letramento em inteligência artificial não deve ficar restrito a treinamentos pontuais ou a orientações sobre o funcionamento de ferramentas. Ele precisa ajudar as pessoas a encontrar onde se encaixam neste novo cenário.
O RH tem um papel importante nessa transição. Cabe à área contribuir para que a organização identifique as competências necessárias, compreenda como as funções estão mudando e crie oportunidades para que as pessoas desenvolvam capacidades.
Também é uma oportunidade para aproximar o desenvolvimento humano das decisões de negócio.
Em vez de tratar a adoção tecnológica e o desenvolvimento de talentos como iniciativas separadas, o RH pode ajudar a conectá-las: quais habilidades serão mais importantes daqui para a frente? Quais profissionais precisam de apoio para assumir novas responsabilidades? Como preparar lideranças para conduzir essas mudanças?
São perguntas que ajudam a tirar a discussão sobre IA do campo das ferramentas e levá-la para um terreno mais estratégico: o futuro do trabalho e das pessoas que o realizam.
Uma conversa que continua para além de cada edição
As rodas de conversa com mentores C-level da Top2You fazem parte da experiência do RH do Futuro, programa de mentoria intercompany da Top2You que conecta lideranças e profissionais de área de pessoas.
A proposta é criar espaços de troca que complementam as mentorias individuais, colocando os participantes em contato com diferentes experiências e perspectivas sobre os desafios do trabalho.
O RH do Futuro já conectou mais de 500 profissionais estratégicos em cerca de 150 empresas. A próxima edição começa em janeiro, dando continuidade à proposta de desenvolver lideranças de RH por meio de conversas que encurtam distâncias.
Se você é CHRO ou gostaria de indicar uma liderança sênior de RH para o programa, entre em contato com a gente e saiba mais sobre como participar do programa.



