Quando Manoela Osorio se formou na faculdade de Jornalismo da PUC do Rio de Janeiro, em 1998, o seu sonho era ser apresentadora de telejornal. Afinal de contas, muitos dos seus colegas saíram de lá direto para o recém-lançado canal de jornalismo 24h no ar, a Globonews.
Os seus planos mudaram, contudo, quando ela teve a primeira experiência profissional na área, como trainee da Editora Abril. Ela foi uma das 30 pessoas escolhidas entre os mais de 2 mil candidatos e, como parte da jornada de aprendizagem, participou do time de redação da revista de comunicação interna da empresa. “Eu me encantei com o desafio de fazer comunicação para jornalistas”, afirma.
Enquanto seus colegas ficaram em uma revista específica, ela precisou cobrir temas de diversos veículos da Abril. “Me apaixonei por esse universo e ganhei uma visão mais ampla do negócio”, acrescenta. Em 2000, foi contratada como analista sênior da Fininvest, uma empresa que considerou muito moderna para a época. “Havia muita autonomia e responsabilização para quem estava em início de carreira”, explica.
Dentro do marketing da companhia, ela cuidava de projetos de incentivo fiscal, além de assessoria de imprensa e comunicação interna. Foi lá que Manoela encontrou o tema que iria inspirar sua próxima fase profissional ‒ o microcrédito (empréstimo de baixo valor para pequenos empreendedores informais e microempresas).
Foco na transformação
Ela decidiu que a sua próxima experiência seria com projetos de transformação social e buscou vagas em empresas que atuassem no relacionamento com comunidades. Foi quando um colega de MBA a convidou para ser especialista em comunicação de marketing pela Light e implementar um projeto de energia solar em localidades de baixa renda. “Migrei do mercado financeiro para o de infraestrutura, do qual eu nunca mais saí”, conta.
No entanto, Manoela se chocou com a lentidão dos processos de uma corporação que não era motivada pela competitividade. Acabou deixando seu cargo para assumir um novo desafio em um setor que estava em plena ebulição: o de telecomunicações.
Em 2004, foi contratada como gerente de comunicação interna na Telemar, que havia incorporado recentemente a operação móvel da Oi e passava por um processo de transformação organizacional. “Ali começou a minha carreira executiva – e minha longa jornada em gestão de mudanças”, diz.
Comunicando mudanças
O seu primeiro grande projeto foi liderar, internamente, a implementação da marca única que unificou as operações fixa e móvel sob o nome Oi. “Cerca de 70% da empresa precisaria assimilar um novo nome, abraçar uma nova identidade e impulsionar uma nova geração de produtos e consumidores. Só havia uma saída: unir forças e construir um propósito comum”, relembra.
Após a implementação da marca única, vieram outras transformações marcantes, como: a entrada na operação móvel em São Paulo, a fusão com a Brasil Telecom, o rebranding da marca e, por fim, em 2016, o início de um dos processos de recuperação judicial mais complexos de uma companhia brasileira. “Sempre tínhamos a sensação de que o projeto atual era mais desafiador que o anterior, e essa complexidade ia evoluindo a cada movimento”, recorda a executiva.
Em 2013, virou diretora executiva e, ao longo dos anos seguintes, incorporou novas áreas à sua gestão, como desenvolvimento de lideranças, diversidade e gestão orçamentária de um dos maiores pacotes financeiros da companhia. “Foi um período de grandes aprendizados em governança e compliance”, afirma. “Mas foi na pandemia que pude aplicar plenamente a visão integrada entre cultura, comunicação interna e marca.” “Foi um período muito rico de humanização, com a entrada do trabalho híbrido. A Oi já era muito focada em pessoas, mas a pandemia deixou claro para todo mundo que trabalhava lá que aquele foco existia”, diz.
Em 2024, pouco mais de 20 anos após sua entrada, desligou-se da companhia. Havia sentido que ficara envolvida por tempo demais no processo de turn around. “Eu comecei a achar que estava consumindo meu próprio conhecimento e achei que a construção estratégica andava em círculos”, explica.
De volta ao mercado de trabalho, ela viu uma certa resistência. “Eu tive dificuldade quando saí, porque eu era muito conectada com a organização”, lembra.
Em meio a tudo isso, ela decidiu redefinir as suas prioridades. Manoela se mudou, com o seu filho de 7 anos, para São Paulo e redirecionou sua carreira. Atualmente, é associate client partnerda consultoria norte-americana Korn Ferry.
Quando foi convidada para fazer mentoria, hesitou, mas agora está encantada com a variedade de assuntos e experiências. “Um universo paralelo inteiro se abriu para mim”, diz. “É uma riqueza de situações, de contextos e de cenários. Fico muito feliz em ajudar as pessoas”, conta.
Mentoria inesquecível
Manoela se lembra de uma jovem profissional que vivia um impasse inusitado: trabalhava em uma granja que era conhecida por ter galinhas que viviam presas e estava prestes a incorporar outra na qual as galinhas ficavam soltas. Em uma visão mais ampla, o problema era que a empresa sendo comprada estava reagindo à cultura de trabalho da que a estava comprando. Manoela tentou mostrar o caminho para sair daquela dicotomia na direção de uma narrativa mais relacionada à natureza do negócio. “Eu nunca vou esquecer o desafio que é incorporar uma granja em que as galinhas são felizes”, completa.



