Quem não conhece a história, dificilmente atribuiria parte do sucesso do Rock in Rio ao trabalho de uma advogada tributarista. Poucos sabem, mas esse foi o primeiro capítulo da jornada profissional de Agatha Arêas.
Formada em Direito pela Universidade Candido Mendes, ela afirma que a graduação garantiu que ela tivesse uma base sólida de lógica, argumentação e estruturação de ideias – habilidades que mais tarde seriam fundamentais para arquitetar experiências que impactariam multidões.
Natural de Niterói, no Rio de Janeiro, sempre contou com o apoio dos pais para ser independente e mudar de rota quando fosse necessário. Agatha escolheu o Direito por ser uma carreira vista como estável e promissora. Foi aprovada no vestibular, concluiu a faculdade, passou no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e, aos 23 anos, já liderava uma equipe em um grande escritório tributarista do Rio.
Mas foram os preparativos para uma especialização em Comércio Exterior nos Estados Unidos, na Universidade da Califórnia, Berkeley, que a fizeram mudar de rota. “Eu me encantei. Fui a palestras de diretores de marketing, conversei com eles. Tudo mudou”, conta.
O fascínio pelo comportamento humano e pela comunicação falou mais alto: ela iria optar pelo marketing. “Não tinha jeito. Liguei para casa e disse: ‘Vou mudar tudo’. Meus pais ficaram preocupados, mas eu estava decidida”, lembra.
Rumo ao Rock in Rio
Agatha voltou ao Brasil depois da pós-graduação em Marketing, em Berkeley, e um estágio em San Francisco.
Um dia, viu uma entrevista do publicitário Roberto Medina, idealizador do Rock in Rio, ao lado do jogador Ronaldo Fenômeno. Eles anunciavam a terceira edição do evento, que ocorreria em 2001. Vieram as lembranças de ter assistido à primeira edição na TV aos 9 anos, em 1985, e de ter ouvido o show do Guns N’ Roses da segunda edição por um walkman, quando estava na Inglaterra, em 1991. “Agora eu vou, mas vou trabalhando”, disse para os pais.
Agatha, então, começou a procurar maneiras de conversar com Medina para pedir emprego. Perguntava para todos que encontrava se o conheciam. A surpresa aconteceu em um jantar de aniversário em que foi com uma amiga. Ao falar com o dono da casa, descobriu que a prima dele era afilhada de Medina. Era uma sexta-feira. Na segunda-feira ela já estava com entrevista marcada. Foi contratada como assistente de marketing e participou da terceira edição do evento.
Ocorre que, na sequência, teve a proposta de trabalhar na área de marketing da cervejaria canadense Molson, que comprou a Bavária no Brasil. Agatha foi contratada e passou dois anos e meio na empresa, morando primeiro no Canadá e depois nos Estados Unidos, e ajudou a lançar a Bavária nos dois países.
Quando estava trabalhando em Nova York, voltou ao Rock in Rio a convite de Rodolfo Medina, filho de Roberto, para ajudar a expandir o festival para Lisboa, Madri e Las Vegas. Foram duas décadas de história, chegando ao cargo de vice-presidente de experiência e aprendizagem, em que inovou criando iniciativas como Rock in Rio Academy, Humanorama, The Town Learning Journey e o Rock in Rio Innovation Week, sempre unindo música, educação e transformação coletiva.
Provocações e mentoria
Em 2024, Agatha decidiu abrir um novo ciclo. Fundou a Provoke Edutainment Club e a plataforma Newbie, com o propósito de reinventar a forma de desenvolver lideranças. Também criou o Método CO3 – Comunicação, Conexão e Colaboração – como base de suas iniciativas. Hoje, suas experiências unem aprendizado e impacto social, sempre com foco em formar uma nova geração de líderes preparados para um mundo mais colaborativo e conectado.
Ao todo, já são mais de 7.450 líderes formados, cerca de 200 líderes mentorados e mais de 392 mil pessoas impactadas em quatro países.
Casada, mãe de dois filhos e vivendo atualmente em Portugal, Agatha segue provocando transformações com a mesma ousadia que a fez mudar de rota tantas vezes.
Para ela, a mentoria é mais do que compartilhar conhecimento: é uma troca que inspira, fortalece e abre caminhos. “Aprendo muito e sinto que faço diferença na vida das pessoas”, diz. Nas sessões, costuma questionar a posição do profissional no momento da mentoria e o que pretende conquistar. “É aí que eu capto o nível de maturidade emocional”, explica. Depois de ouvir, devolve reflexões, aponta caminhos e constrói junto com o mentorado um espaço de confiança e aprendizado contínuo.
Mentoria inesquecível
Uma experiência de mentoria que a marcou foi a de uma superintendente de uma empresa de tecnologia, de cerca de 35 anos, que a procurou porque queria criar uma nova unidade de negócios na sua empresa. Ela escolheu Agatha porque viu que ela tinha conseguido criar um novo cargo e uma nova área para atuar quando estava no Rock in Rio. As trocas das duas se estenderam por quatro sessões, com uma preparação que incluía ainda mensagens pelo WhatsApp nos intervalos. Agatha a ajudou a criar um plano e a pensar nos caminhos. Terminada a mentoria, a funcionária fez a proposta e recebeu a aprovação para criar um piloto dessa nova unidade. “Foi uma troca incrível. O resultado positivo fez das sessões algo ainda mais especial”, conta.



