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Mentores Fora de Série: Alexandre França

Por top2you

Muito antes de se tornar um executivo na indústria farmacêutica, Alexandre França começou sua história atrás de um balcão. Não de farmácia, como seria de se esperar ao olhar para a sua carreira futura, mas do McDonald’s.

Aos 18 anos, Alexandre foi trabalhar em um restaurante da rede de fast-food no centro do Rio de Janeiro para ter “a sua própria grana”, como gosta de contar. Em dois anos, passou de atendente a gerente. Ele conta que esse período atrás do balcão foi muito importante para aprender como superar os primeiros desafios de gestão, como entregar os produtos, no caso hambúrguer e a batatas fritas, na condição ideal, sem fazer o cliente esperar demais.

A sua jornada no restaurante, contudo, foi interrompida pelo seu plano de carreira, já que ele deixou o emprego para concluir a graduação de Comunicação Social na PUC-Rio. Formado em 1993, Alexandre respondeu a um anúncio de trainee nos classificados do jornal e ingressou na L’Oréal, para trabalhar como vendedor.

Quatro anos depois, ele foi procurado pela diretora de RH que o havia selecionado para a empresa de cosméticos. Ela queria saber se ele estaria interessado em uma vaga na gigante da indústria farmacêutica GlaxoSmithKline. Alexandre estava interessado sim e por lá ficou cinco anos. “Ela me falou: ‘Precisamos de alguém que vista macacão ou terno e fique bem dos dois jeitos’. Eu adorei a ideia e notei que era o meu estilo. Transformei isso na minha identidade profissional”, diz.

Ao longo da sua carreira, Alexandre ficou alternando entre as áreas de marketing e o comercial. Para ele, a flexibilidade de atuação e o conhecimento em vários departamentos não só melhora a leitura de mercado do profissional, como também acelera as decisões e as torna mais acertadas. “Todo mundo que aprende a vender uma caneta vira um profissional de marketing muito melhor”, afirma. 

Reconstruindo negócios

Em 2002, Alexandre é contratado pela Merck e tem um desafio diferente na sua carreira. Agora, ele precisava resgatar o portfólio de medicamentos isentos de prescrição (ou OTC) que estava com as vendas em queda, tinha processos frágeis e acumulava prejuízos. “Descobri que sou um bom reconstrutor de áreas de negócio destruídas”, garante.

A estratégia de Alexandre foi diagnosticar o caos da área para poder decidir o que valia a pena insistir para melhorar e o que era melhor descartar. A partir daí, foi necessário redesenhar processos. Por fim, foi feita uma análise para trocar profissionais e deixar os perfis corretos nos lugares certos. Sob a sua gestão, conta, a divisão se tornou destaque global na empresa.

Após uma rápida passagem pela Novartis, o executivo virou diretor na Bristol, em 2008, onde teve autonomia para cuidar de marcas maduras como Oncilon. Lá, ele considera que seu maior desafio foi provar que execução simples e foco em ponto de venda são capazes de reativar a demanda por esse tipo de produto. Em pouco mais de um ano, foi promovido a vice-presidente comercial.

Em 2010, aceitou o desafio de estruturar a operação da sul-africana Aspen no Brasil e acabou nomeado presidente um ano depois. “Em 13 anos, conduzi a empresa de R$ 60 milhões para R$ 600 milhões de faturamento”, conta.

Desde abril de 2021, Alexandre é diretor-presidente na Medquímica (Lupin), com a missão de repetir o playbook de transformação, ampliando o foco para além dos genéricos e resgatando a lucratividade após anos de resultados negativos. 

Mentoria sem fórmula

“Não sou mentor ou coach profissional. O que trago é uma reflexão por meio de um bate-papo. Quem me direciona é o próprio mentorado”, relata. Antes de cada conversa, Alexandre lê o briefing, revisita o LinkedIn do mentorado e estuda a empresa.

Na sessão, trabalha com um tripé em mente. Primeiro, pessoas acima de tudo. Uma carreira de sucesso, e a tão sonhada promoção, começam na relação com a equipe. “Não conheço gestor promovido que não seja admirado pelos colegas”, afirma. Depois, comunicação. Segundo ele: “99% dos problemas numa empresa vêm da ausência de comunicação ou da comunicação malfeita”. E, por fim, leitura de cenário. “Destaca-se quem consegue se antecipar e preparar alternativas”, conclui.

Com quem ele conversa? De coordenadores a VPs, mas a maioria são gerentes e diretores. “Na hora em que a pirâmide afunila, gente tecnicamente forte vem em busca de alavancas comportamentais para dar o próximo salto”, conta.

Mentoria inesquecível

Alexandre se lembra com carinho de uma mentoria de um jovem gerente. “Normalmente, quem me procura sempre menciona que eu comecei a minha carreira de baixo. As pessoas querem entender o que eu fiz para crescer e ouvir de mim que esse processo também é possível para elas”, afirma. Esse jovem gerente, contudo, tinha uma condição de vida bem mais desafiadora, já que era morador de favela e perdeu familiares na guerra do tráfico. “Ele nunca desistiu, sempre mostrando uma garra enorme. Eu fui dando dicas sobre como ler os cenários nas empresas e aproveitar as oportunidades”, lembra. Alexandre diz que foi uma jornada de mentoria inesquecível, de mão-dupla, em que todos os lados saíram mudados. “Aprendi com ele sobre resiliência, me emocionei e terminamos como se fôssemos amigos de longa data”, completa.