Jair Moggi é do interior de Minas Gerais, mas veio para São Paulo com a família enquanto ainda era muito jovem. Fixaram residência em Santo André, no ABC paulista, nos anos 1960, como muitas pessoas fizeram em busca de arrumar emprego na indústria metalúrgica que prosperava na região. Foi nesse boom econômico que começou a sua carreira.
Aos 14 anos, Jair tinha sido contratado para trabalhar no departamento pessoal de uma delas e tinha um chefe que costumava passar pela sua mesa e atirar um livro: “Leia e depois nós conversamos”. O primeiro livro que Jair recebeu do então chefe foi O Homem Medíocre, do escritor argentino José Ingenieros. “Eu confesso que não entendi por que ele me deu aquele livro”, conta.
Conseguiu lê-lo apenas muito tempo depois. Essa pessoa seria o seu primeiro mentor, mas mesmo naquela época, a obra filosófica que toca em temas como idealismo e mediocridade acabou “despertando muita coisa” para ele. Foi transferido para processamento de dados, área que estava sendo implementada na empresa em meio a uma ampla modernização, mas não gostou dessa mudança e queria retornar a um campo mais próximo das ciências humanas.
Em 1974, trocou a empresa metalúrgica e chegou a Mangels, uma empresa quase centenária que produz principalmente rodas de alumínios para automóveis. Ela também passava por um momento de mudanças internas e contratou uma consultoria holandesa chamada Netherlands Pedagogish Institute (NPI) para atuar no processo de profissionalização e mudança cultural, juntamente com a consultoria estadunidense SRI, ligada à Universidade de Stanford. Foi quando Jair entrou em contato pela primeira vez com os conceitos antropofísicos que fundamentam, até hoje, a sua trajetória profissional.
Desenvolvida pelo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), a antroposofia é especialmente influente em pedagogia, informando o método de pedagogia das escolas Waldorf. Foi ao entrar em contato com o trabalho do psiquiatra holandês Bernard Lievegoed, fundador da consultoria NPI, que Jair viu os benefícios da antroposofia entrando nas empresas, nas práticas organizacionais. “É uma abordagem complexa mas ao mesmo tempo simples, envolvendo vários passos, mas resulta em um processo de desenvolvimento que combina o individual e o coletivo para garantir o melhor resultado quantitativo e qualitativo para todos os envolvidos dentro da empresa”, conta.
Inspirado pela antroposofia, Jair explica a sua filosofia de vida ‒ que leva para as consultorias, para as mentorias e para a sua vida pessoal. “Pensar, sentir e querer. Essas são as dimensões humanas na essência de um processo de desenvolvimento individual e coletivo.”
Apoio ao desenvolvimento
Jair permaneceu 15 anos na Mangels trabalhando com esses conceitos, os últimos cinco como diretor administrativo financeiro. Ele buscou, em paralelo, continuar a sua formação acadêmica, graduando-se em Ciências Econômicas pela Fundação Santo André e em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo. Passou em um concurso para ser professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, na qual conseguiu o seu mestrado em Administração.
Naquela época, dava muitas palestras sobre o sistema de gestão da Mangels. Em uma delas, alguém levantou a mão e disse: “Isso que você está falando não é antroposofia?”. A pessoa havia identificado muitas similaridades entre o discurso de Jair e o de uma outra pessoa que ela conhecia. Por acaso, aquele mesmo consultor da NPI com o qual Jair havia tido contato na Mangels anos atrás e que estava retomando a atuação na consultoria. O consultor havia acompanhado o desenvolvimento da carreira de Jair e, juntos, eles decidiram fundar a Adigo Consultores, um acrônimo de Apoio ao Desenvolvimento de Indivíduos, Grupos e Organizações.
Jair saiu da Mangels e, aos 36 anos, tornou-se consultor. “O nosso desafio, na época, era trabalhar a partir de um conceito que não era muito conhecido no Brasil, mas que vimos os resultados e no qual acreditávamos”, diz. No começo, a maior parte dos clientes eram empresas familiares com as quais Jair tinha mais proximidade.
A lista, porém, também inclui trabalhos em organizações como o Metrô de São Paulo, a Sabesp, a Eletropaulo, a Natura e a Johnson & Johnson. São quase 38 anos dando consultoria, com a atuação sempre em paralelo com a vida acadêmica e a sua carreira como professor.
Jair explica que sempre procurou ter uma abordagem pragmática, mas com um pano de fundo humanístico e isso, ao longo do tempo, foi se transformando: consultoria, coaching e, em certo momento, a mentoria, que procura desenvolver a partir dos conceitos da antroposofia. “As experiências, sempre, boas ou ruins, levam a uma reflexão: O que foi feito? Por que foi feito? Quais são as consequências do que foi feito? Em que fase da vida os fenômenos aconteceram? Como isso pode ressoar no futuro? Líderes que fazem um trabalho a partir dessa reflexão nunca têm uma experiência repetitiva e estão sempre a serviço de algo maior”, afirma.
Conhecido pelo comportamento calmo, pelo extremo cuidado nas interações e pelo bom papo, Jair acredita que a criação de um bom ambiente é fundamental para garantir o sucesso das iniciativas – seja das consultorias ou das mentorias.
Mentoria inesquecível
Jair trabalhou com uma empresa familiar na qual se orgulha de ter feito um trabalho completo, por ter sido mentor tanto do fundador quanto do seu herdeiro que, no começo da relação, tinha entre 21 e 22 anos e foi mentorado até os 35. A mentoria foi parte do processo estruturado de sucessão com toda a família. Hoje ele é presidente do conselho de administração da grande corporação, após ter passado por todas as áreas-chave, inclusive CEO, para entender o que a empresa fazia na prática. E a companhia segue crescendo. “Ele poderia se acomodar, mas escolheu trabalhar direito. Dedicação e planejamento ajudam a ir mais longe”, diz.



