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Mentores Fora de Série: Ruy Marra

Por top2you

Ruy Marra tinha pavor de altura quando, aos 18 anos, um amigo fez um convite inusitado: voar de asa delta. Até hoje ele não sabe dizer ao certo por que aceitou. O medo continua ali. “Talvez tenha sido a paixão pelas montanhas de Nova Friburgo, não sei. Sei que eu fui”, diz.

O que era para ser uma experiência isolada se tornou rotina e Ruy pegou gosto pelo esporte e pelas decolagens do Pico da Caledônia, local a 2.200 metros de altura, no Rio de Janeiro, onde costumava acampar quando era criança. Não que tenha sido fácil. Uma pessoa comum costuma levar cerca de 30 aulas para aprender a voar de asa delta. Ruy levou um pouco mais. “Eu precisei de mais de 300 aulas, mas aprendi”, conta. A persistência lhe deu bagagem para compreender o próprio medo – e para se tornar instrutor.

Desde os anos 1980, ele já fez mais de 35 mil voos duplos carregando outros passageiros. A experiência de Ruy serviu de base para ele criar o método que ajuda a acolher outras pessoas inseguras. E isso abriu espaço para que estudasse um assunto: a neurociência do comportamento humano e as estruturas fisiológicas do processo de estresse.

O resultado dos estudos e dos milhares de voos é a base de seu trabalho na mentoria de líderes, aos quais busca ajudar desde 2008, desenvolvendo técnicas para regular emoções e promover ambientes corporativos acolhedores.

Nas alturas

Voo livre não era uma coisa comum nos idos de 1982, quando Ruy Marra já trabalhava como instrutor. Certo dia, procurando uma aventura no Brasil, o baterista da banda The Police, Stewart Copeland, apareceu para voar de asa delta com ele, no dia em que faria um show no Maracanãzinho.

Para a surpresa de Ruy, o músico o citou no palco, dizendo que a experiência tinha sido uma das melhores de sua vida. Resultado: seu trabalho saiu na MTV americana, e ele voou com diversos rockstars daquela década, como os integrantes de bandas como o Guns N’ Roses e o Faith no More.

A divulgação feita pelas celebridades lhe trouxe fama e muitos clientes. Para ser exato, mais de 200 por mês. Nesse momento, Ruy percebeu uma estatística interessante: embora as pessoas parecessem seguras, 95% delas “travavam” na hora do voo. Carregando um equipamento de 40 quilos, a maioria tinha medo e não conseguia correr na velocidade necessária (16 km/h), colocando a decolagem em risco. “Achei aquilo uma metáfora para a vida”, comenta.

Do empírico para a pesquisa

Em 1995, o instrutor (que já era formado em Direito) resolveu transformar essas estatísticas em estudo sério. Fez uma pós-graduação em Biopsicologia para compreender a neurofisiologia do estresse. Em sua pesquisa, ele ouviu mais de duas mil pessoas logo antes de um voo livre. Aferiu batimentos, deu uma nota para a qualidade da corrida e, no final, aplicou um questionário.

Como resultado dessa pesquisa, que durou dez anos, ele conseguiu estabelecer relações entre uma educação sócio emocional saudável e o comportamento das pessoas na rampa. O achado central foi que, quando as crianças são estimuladas com brincadeiras arriscadas, mas com suporte afetivo de seus cuidadores, elas criam uma espécie de “conta bancária emocional” para a vida adulta. Ou seja, pessoas com esse tipo de criação tendem a lidar bem com o estresse – e correm melhor na rampa da asa delta.

Um salto para a mentoria

Em 2008, Ruy Marra percebeu que poderia levar seus achados acadêmicos para o mundo das mentorias e abriu uma empresa de consultoria. Começou a propagar métodos para ajudar executivos a diminuir a reatividade emocional de seus interlocutores.

Outro caminho foi apoiar lideranças na promoção de ambientes seguros que incentivam criatividade e inovação nas companhias. “Se uma parte do grupo está com medo ou sem confiança, todos são afetados. Nessas horas, o líder precisa de técnica: mudar de assunto, contar uma história, colocar o grupo numa espiral positiva”, explica.

Ruy ainda fez um mestrado em Cardiologia na UFRJ e está fazendo doutorado na Fiocruz, com foco em saúde mental. Fora de sua consultoria, ele trabalha também desde 2010 no Instituto Reação, do ex-atleta Flávio Canto, oferecendo apoio a judocas.

Mentoria inesquecível

Ruy se recorda de um um mentorado que era o coordenador de planejamento de uma empresa do ramo calçadista. “Ele precisava aumentar a meta da fábrica, mas temia que o time fosse receber a notícia muito mal”, lembra. O mentor aplicou uma técnica conhecida como Roda Evocativa de Conteúdo (REC), além de fazer exercícios de regulação das emoções. “Conversamos sobre como ele poderia, com os fundamentos da neurociência e do comportamento humano, liderar a equipe através de uma técnica específica”, diz. Semanas depois, o mentorado contou que as técnicas tinham sido bem-sucedidas e que foram usadas pela própria equipe nas reuniões. “Ele conseguiu aumentar a meta e fez isso de uma maneira muito criativa. A resposta do time foi bem mais cooperativa do que ele esperava”, relembra.