A jornada de Sandra Barbosa não foi fácil. Por mais de três décadas, ela construiu a sua carreira em cargos de liderança no setor financeiro, encarando o desafio de ser uma mulher negra. Com 33 anos de carreira no Itaú, ela aproveita a sua experiência para ajudar outros profissionais por meio da mentoria.
Nascida em Moreno, no interior de Pernambuco, Sandra se mudou ainda jovem para São Paulo com a mãe e o irmão. “Minha mãe sempre foi meu exemplo. Acordava às 4h30, trabalhava muito, ajudava toda a família. Cresci com a ideia de que a vida ama o forte, o lutador”, conta.
Em 1988, com apenas 18 anos, Sandra ingressou no Itaú como escriturária, o cargo inicial no banco. Ela lembra que, ao entrar, foi alocada em uma área apelidada de “QS” (“quase saindo”), em que sofria bullying dos colegas. “Mas eu era uma menina cheia de energia, com muita vontade. Agarrei a oportunidade com unhas e dentes”, relembra.
Durante os anos seguintes, conciliou trabalho e estudos. Fez graduação em Pedagogia e, mais tarde, em Administração com ênfase em Comércio Exterior pela Universidade Estado de São Paulo. Sandra conta que a opção pela pedagogia veio da busca de ter uma alternativa viável à vida corporativa, enquanto o comércio exterior surgiu da vivência profissional com clientes que lidavam com comércio internacional. “Comecei a estudar importação, exportação, linhas de crédito e percebi que precisava de mais bagagem para dar conta das novas funções”, conta.
Com o tempo, Sandra tornou-se gerente de agência e, depois, superintendente de negócios, cargo que ocupou por mais de uma década. Trabalhou em 12 estados diferentes e liderou equipes em contextos variados. “Ganhei prêmios, participei de projetos importantes, fui reconhecida pelo alto desempenho. Mas nada disso veio sem luta”, diz.
Mulher, negra e líder
Sandra ressalta que uma constante em sua experiência profissional foram as resistências por ser mulher e negra. “Não existia esse discurso sobre diversidade. As salas eram ocupadas apenas por homens brancos e héteros. No começo, ninguém me ouvia. Eu não fazia parte daquela conversa. Eles falavam sobre futebol na primeira conversa de segunda-feira e eu não sabia nada do assunto. Tive que aprender”, relata.
Sua estratégia foi simples e eficaz: apresentar resultados. “Quando os números começaram a aparecer, eles me ouviram. Resultado abre porta”, conta. Ela se lembra que, por muitos anos, ouviu críticas por sorrir demais, por ser leve demais. “A minha marca é o meu sorriso. Mesmo com todos os desafios, eu nunca deixei isso me sufocar”, afirma.
A mentoria
Em 2022, depois de 33 anos de carreira, Sandra decidiu encerrar seu ciclo no banco. Um dos estímulos foi o desejo de contribuir diretamente com a formação de lideranças. “Já fazia mentorias internas e tocava projetos de plano de desenvolvimento individual com pessoas negras, mulheres, jovens… Era a hora de fazer disso a minha principal missão”, explica.
Nesse período, fez uma pós-graduação em Neurociência na PUC-RS. “Queria entender o comportamento humano em profundidade, porque estava mudando de carreira. Se eu ia trabalhar com pessoas, precisava entender mais sobre como elas pensam, sentem e reagem. Foi uma virada”, conta.
Hoje, Sandra comanda sua própria consultoria e atua como mentora na Top2You. Além da carreira sólida, é esposa e mãe, concilia os papéis familiar, profissional e acadêmico. Também, é mestranda na Fundação Dom Cabral, com uma pesquisa focada no adoecimento mental de profissionais do setor bancário privado. “Quero entender como o burnout, estresse e desengajamento custam caro, tanto para as pessoas quanto para as empresas”, conta. Sua abordagem como mentora mistura escuta e planejamento: “O mentorado chega e eu pergunto: ‘Qual é o seu objetivo?’. Muitas vezes a gente descobre que a meta não é alta demais, só está mal explicada”.
Sandra atende desde jovens em primeiro emprego até executivos do alto escalão, mas os temas mais comuns são liderança, transição de carreira e posicionamento feminino. “Tem muita mulher líder que se masculiniza para ser ouvida. Eu sempre falei baixo e não precisei gritar, mas nunca deixei de dizer o que precisava ser dito”, finaliza.
Mentoria inesquecível
Sandra conta que, certa vez, teve a oportunidade de acompanhar uma profissional com alto desempenho em sua área que queria a gerência. Apesar de já ter participado de várias bancas para promoção, ela nunca tinha conseguido. A mentora esteve presente em uma dessas bancas e percebeu que algo a travava: sua voz estava trêmula, as mãos inquietas. “Ficou claro para mim que o problema era confiança”, diz. Sandra, então, decidiu marcar outras sessões com a profissional. Escutou sobre sua jornada, compreendeu as dores dela e ajudou a traçar um plano. Sugeriu exercícios práticos, como pesquisar empresas do segmento no quesito atendimento, e apresentar suas percepções. Aos poucos, ela ficou mais confiante. De acordo com Sandra, no terceiro exercício, ela já parecia outra mulher: mais firme, segura, com clareza de repertório e presença. Como resultado, foi aprovada na banca seguinte e hoje é gerente de uma grande empresa. “Mentoria é isso: ajudar alguém a reconhecer suas forças, organizar o conhecimento e ganhar a confiança necessária para mostrar seu potencial”, acredita.



