Stânia Lopes teve a sua primeira formação técnica no magistério ‒ o seu plano inicial era ser professora infantil. Na época, a mineira de Timóteo, cidade próxima de Belo Horizonte com 82 mil habitantes, recebeu um certificado para ser professora voluntária da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) no interior mineiro.
Aos poucos, foi vendo que a sua carreira não seria por ali ‒ queria trabalhar no mundo corporativo. Foi por isso que escolheu o seu curso universitário: Contabilidade e Administração na PUC de Minas Gerais.
Formada, foi contratada pela Companhia Siderúrgica do Pará, em 1990, mas a sua carreira mudou completamente quando se viu, aos 21 anos, em outro estado sendo a contadora principal de uma empresa de capital aberto na bolsa de valores.
Em seis meses, o dono da companhia avisou que ela ia receber uma promoção e assinaria o balanço da empresa no ano. Teve que correr para tirar o seu registro de contadora a tempo. “Tanto que meu registro é do Pará. Nem de Minas, onde eu nasci, nem de São Paulo, onde eu trabalhei por décadas…”, conta. Essa foi a primeira experiência gerencial da Stânia e, desde então, ela nunca deixou os cargos de liderança.
A sua jornada no Pará acaba em 1995, quando o seu então marido foi contratado para atuar em uma empresa do setor de autopeças. A família toda se mudou para Jundaí, no interior de São Paulo, onde Stânia foi contratada para trabalhar na Giassetti Engenharia e Construções.
Mesmo tendo sido promovida a contadora geral do grupo inteiro assim que retornou de licença maternidade, ela decidiu sair depois de quatro anos na posição. A empresa familiar limitava as suas perspectivas de crescimento, e ela queria novos ares. Stânia, então, responde a um anúncio no jornal da empresa inglesa Rexam PLC, especializada em embalagens plásticas para cosméticos.
No Brasil, contudo, operava como uma startup ‒ com estrutura mínima e desafios gigantescos. “Acabei ficando responsável por toda a parte administrativa, além de TI e RH. Cuidei de tudo porque era a contadora da empresa e a funcionária de número sete”, lembra. Foi nessa mesma época que fez o MBA em Controladoria e Finanças na Fundação Getulio Vargas e ouvia dos colegas que haveria mais oportunidades financeiras se ela se mudasse para São Paulo. Foi o que fez.
Vida Paulistana
Na cidade, é contratada pela IOB, companhia brasileira de software de contabilidade, em 1999. A empresa, porém, havia sido comprada pela Thomsom e estava em reestruturação. “Havia um problema enorme: ninguém falava inglês. Eu aproveitei a minha experiência na Rexam, já que fazia todos os relatórios, em inglês, e virei referência para eles”, lembra. Em pouco tempo, Stânia conseguiu a promoção que queria para controller, um cargo mais estratégico dentro da área das finanças.
Depois de dois anos e meio na posição, ela foi contatada por um headhunter com uma vaga tentadora: ser diretora. Ela aceitou e se tornou diretora financeira e administrativa da IDG Brazil. O que parecia ser um sonho, rapidamente se mostrou bem distante disso. “Em sete meses, tudo mudou. Quem tinha me contratado foi desligado da empresa e eu vi que me deixei levar mais pelo título do cargo do que pelo trabalho”, lembra.
Segundo ela, essa passagem a marcou para toda a sua vida. “Não tenho vergonha de contar, muito pelo contrário. Como mentora, temos que falar das nossas falhas”, diz. O seu passo seguinte foi uma curta passagem pelo segmento hospitalar da Siemens.
Depois, Stânia foi trabalhar como controller da Xylem Water & Watstewater, do grupo ITT, na divisão de tratamento de água e esgoto, onde ela ficou por quatro anos e saiu para ser controller na Smiths Medical. Stânia ficaria nessa função se não fosse outro headhunter com uma proposta inesperada. Ele queria saber se ela estava interessada em trabalhar para startups no setor de software.
Apesar das dúvidas, ela aceitou e se tornou CFO da Ciena. Mesmo com a falta de estrutura da empresa, com o faturamento sendo feito à mão, Stânia diz que foi lá que ela se consolidou como diretora. E ficou até a empresa se acertar. “Depois que estava tudo rodando bem, decidi sair. Não tinha mais nada para fazer lá”, conta.
Depois dessa passagem como CFO, Stânia decidiu deixar a vida corporativa. Já estudava para se tornar conselheira e reforçou os estudos. Foi conselheira independente em Furnas, conselheira suplente da Embraer, entre 2023 e 2024, além de atualmente ser conselheira da empresa de software fiscal Bravo.
Montou a sua própria consultoria, focada em reestruturação. E o que começou em um grupo de WhatsApp com três amigas durante a pandemia acabou virando o WCFO, um ecossistema que reúne executivas mulheres e tenta promover e inspirar novas profissionais. Um dos pilares é a mentoria. “Foi ali que eu comecei a contar a minha história e as pessoas começaram a se identificar com ela”, afirma.
Mentoria inesquecível
Um dia, Stânia estava conversando com o controller de uma empresa cliente da Ciena. Ele contava que havia rejeitado uma proposta para assumir uma posição maior na África por causa da sua esposa e da sua filha. “Eu dei uma bronca nele”, conta. “Eu falei: não acredito que você fez isso com a sua carreira. Se você ficasse um ano, dois, voltaria com uma estrela no currículo”, lembra. O homem ligou para ela duas semanas depois. Aquela dura havia feito com que pensasse bastante e queria iniciar um processo de mentoria com ela. “Ele reviu a própria carreira. Começou a se mostrar inquieto, interessado em ser desafiado. Não foi para a África, mas ele foi promovido”, conta.



