Filho de uma francesa, Steven Dubner conta que quase não nasceu. A sua mãe fugiu da Europa por conta da Segunda Guerra Mundial rumo ao Brasil. Já o seu pai, nascido nos Estados Unidos, também veio para cá para trabalhar na embaixada norte-americana. Eles se conheceram e se apaixonaram mesmo sem falar a língua um do outro, muito menos português.
Ocorre que, quando o pai foi embora, a família teve dificuldades financeiras. A mãe trabalhava o dia inteiro e mal ficava em casa. “O esporte sempre foi o meu porto seguro. Nunca fui um grande atleta, mas me dedicava muito”, conta. Foi assim que ele escolheu a sua carreira, cursando Educação Física pela Fefisa, uma universidade de Santo André.
Formado, ele começou como técnico de basquete infantil até chegar na categoria principal, em São Paulo. Em um treino, havia um menino em cadeira de rodas na plateia, assistindo. Quando terminou a atividade, ele perguntou se poderia aprender a jogar. “Eu travei. Não sabia o que dizer, muito menos o que fazer. Estávamos em 1980 e não se falava em basquete em cadeira de rodas. Entrei na quadra e pensei: Se o esporte conseguiu mudar a minha vida, imagina a de uma pessoa com deficiência?”, questiona. Naquele momento, ele decidiu que dedicaria toda a sua carreira a fazer isso.
Mercado de trabalho
Steven começou como técnico no Clube dos Paraplégicos de São Paulo e fundou o primeiro clube esportivo de cegos em São Paulo, o Cadevi. Em 1983, acompanhou as equipes brasileiras de basquete e natação no mundial e, no ano seguinte, nos Jogos Paralímpicos de 1984.
O desempenho foi positivo: 28 medalhas, com sete de ouro. Mais medalhas do que atletas, como ele diz. “Eu me apaixonei pelo mundo do esporte paralímpico, mas percebi que atletas de países como Estados Unidos e Inglaterra tinham um nível maior, e a razão principal era porque começavam a praticar esportes desde crianças”, explica.
Com isso em mente, procurou o colégio Pueri Domus para montar a primeira equipe infantil de basquete em cadeira de rodas do Brasil. Em paralelo, começou a tocar o seu projeto de ajudar as pessoas com deficiência (PcDs) a entrar no mercado de trabalho.
No meio da campanha, recebeu a ligação de um empresário que queria um vendedor. Steven recomendou um PcD que tinha ótimas habilidades de comunicação. Três meses depois, ele volta a ligar: “Ele falou: ‘Me manda mais dez que nem esse cara, ele é ótimo e não reclama de nada. Qual o segredo?’”, conta. “Não tinha segredo. As pessoas com deficiência nem sempre têm oportunidades, mas, quando as têm, agarram com tudo”, afirma.
Eu quero cadeira de rodas
Quando Steven foi ao Pueri Domus com seu projeto, precisou preparar os estudantes para receber as suas crianças com deficiência. Um dos alunos comentou sobre a iniciativa com o pai, que trabalhava no Grupo Ipiranga.
O executivo ficou interessado e convidou Steven para dar uma palestra sobre o tema para os seus funcionários. “Eu não queria ir, mas só aceitei porque ele me prometeu doar cadeiras de rodas para as nossas crianças”, conta.
A partir daí, foram surgindo palestras por todo o Brasil, e o pagamento eram sempre cadeiras de rodas de basquete, tanto para as crianças como para os adultos. Steven também conseguiu patrocinadores e ajudou a abrir os olhos das empresas para um mercado que tinha um enorme potencial, mas, principalmente há 40 anos atrás, era inexplorado.
Assim teria seguido a sua carreira profissional, não fosse um convite, inesperado, feito pela American Airlines. O ano era 1986 e a companhia aérea dos Estados Unidos convidou Steven para trabalhar na empresa e ele se viu muito interessado pela vaga, não só pelo cargo ou pelos benefícios, mas pela possibilidade de rodar o mundo. “Eu queria aprender, conhecer culturas diferentes. Não poderia desperdiçar essa oportunidade “, explica.
Em uma companhia aérea, teve muitas oportunidades de fazer isso. Quando retornou ao Brasil, dez anos depois, fundou a Associação Desportiva para Deficientes (ADD) em 1996, com o objetivo de estruturar e profissionalizar todos os diversos projetos que tocou na vida.
Quem toca a ADD atualmente é sua co-fundadora, Eliane Miada, enquanto Steven continua ministrando palestras por todo o Brasil. “Um dos grandes legados das palestras é tirar os PcDs da invisibilidade através do esporte”, diz.
É a mesma coisa que tenta fazer na mentoria. Steven se considera mentor e mentorado. Ele foi professor e treinador de crianças e adultos, além ser mentor na Top2You desde 2021, mas também considera que muitos dos atletas que passaram por sua vida foram seus mentores. “Muitos atletas foram mentores para mim e me provaram que a estrutura e as ferramentas ajudam, mas é o tamanho da vontade que faz a diferença”, finaliza.
Mentoria inesquecível
O mentorado era de uma empresa enorme de telefonia e estava tendo dificuldades para motivar a sua equipe. Steven nunca havia tido atuação na área executiva, mas contou como fazia com as suas equipes esportivas. “Uma coisa que eu falo para os meus atletas é que eu quero o erro, eu quero a vulnerabilidade. Porque, se não tiver isso, ninguém se arrisca e nada se cria”, afirma. O executivo ouviu e disse que era exatamente o que iria fazer. E depois deu o feedback a Steven. “Deu tudo certo, ele não teve mais problemas de motivação”, completa.



