Ubiraci Silva Matos, o Ubiraci Pataxó foi incentivado desde criança a aprender a ler e estudar. Era uma estratégia para ele poder defender, de um outro modo, a cultura indígena. “Meus filhos, a nossa luta é com borduna [um tipo de porrete], arco e flecha. Mas a de vocês será com a caneta”, dizia seu pai, o cacique da aldeia de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia – cidade que foi palco da invasão portuguesa em 22 de abril de 1500.
Mesmo sem ser alfabetizado, seu pai costumava folhear as revistas doadas pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que falavam sobre diferentes povos indígenas. Aquilo encantava Pataxó, que perguntava o que estava escrito nas páginas. Falando de memória, seu pai explicava cada um dos povos e seus costumes que apareciam na revista.
Foi esse olhar e a curiosidade de entender o outro que marcou Ubiraci na sua jornada profissional para se tornar professor, palestrante, mentor e terapeuta indígena. Atualmente, ele dirige o Espaço Korihé, palavra que significa “cuidar” na língua Patxôhã.
Múltiplos aprendizados
O ensino tradicional era precário na aldeia. Para intensificar seu aprendizado, ele morou dois anos com uma família de professores. “Eles me ensinaram não só como ler corretamente e entender o que estava escrito, mas questões como pegar um garfo e uma faca, a me comportar diante das pessoas”, lembra.
De volta à aldeia, ele também se aproximou dos pajés, curandeiras e benzedeiras, pois queria entender se suas curas tinham relação somente com o mundo espiritual ou também com o domínio de alguma técnica específica. Em vez de se limitar a responder às perguntas de Ubiraci, eles o chamavam para acompanhá-los e para receber seus ensinamentos na prática.
Filho de uma mãe negra, Ubiraci se define como um indígena-afro, não como um afro-indígena. Isso porque ele só veio a compreender sua ancestralidade materna na vida adulta, já que cresceu em meio à cultura indígena. “Esse é o meu contexto de vida, essa junção entre esses dois universos que, de certa maneira, são invisibilizados e desrespeitados”, destaca.
Quando entrou na faculdade, Ubiraci descobriu como o ensino também podia ser excludente. Ao cursar Ciências da Natureza e Matemática no Instituto Federal de Ciências e Tecnologia da Bahia – IFBA, percebeu que o modelo acadêmico não foi criado para agregar outros saberes, mas para impor uma determinada visão eurocêntrica.
Havia o preconceito de que os indígenas não tinham conhecimento em matemática e outras áreas. Mas Ubiraci conhecia os construtores de sua aldeia e sabia que eles podiam erguer casas que sobrevivem por décadas. “É um conhecimento matemático, mas não está escrito”, explica.
Apesar de ser tão antiga como a chinesa, a medicina indígena também é desvalorizada. Ubiraci se aprofundou no tema, e se capacitou por meio de cursos. “Eu procuro um caminho do meio entre os saberes”, diz. Por ter aprendido a lidar com culturas diferentes, acabou se tornando um aconselhador e mediador de conflitos, não só na própria comunidade como também em empresas e instituições.
Dessa maneira, ele passou a ser convidado para realizar mentorias, com foco em recuperar conexões perdidas pelas pessoas com suas origens, com o lado espiritual, com a sociedade ou com a natureza.
Valores em destaque
O saber indígena e as lições da natureza estão sempre presentes nas mentorias de Ubiraci. Nas aldeias, por exemplo, as decisões são tomadas sempre em conjunto. “É melhor errarmos juntos do que alguém acertar sozinho”, diz.
Ele também destaca a importância de cada um em uma empresa, do recepcionista ao CEO, tal como acontece na natureza, em que todos têm um papel a cumprir de acordo com suas capacidades e funções. “O que eu venho trazendo nessas mentorias é esse saber indígena de como liderar, de como olhar a natureza como mãe que ensina e que cuida”, afirma.
Um dos principais caminhos seguidos por Ubiraci em suas mentorias consiste em primeiro tentar entender quem é a pessoa que está procurando ajuda. “Sempre digo que estamos em um oceano e temos que encontrar o peixe para o almoço”, compara.
Para ele, o peixe representa o que a pessoa procura para o momento específico, como maior salário ou senso de comunidade, mas isso não tem sentido se a pessoa não tiver autoconhecimento. É ao desvendar os valores de cada mentorado, que Ubiraci consegue descobrir em conjunto o que de fato o mentorado necessita – algo que nem sempre está claro.
Mentoria inesquecível
Um dos casos marcantes entre as mentorias de Ubiraci foi o de um mentorado de 55 anos. Ele estava feliz com o trabalho e com o cargo que ocupava – havia subido na carreira e ganhava um bom salário. Seu chefe queria promovê-lo, mas ele relutava. Os dois, então, procuraram entender por que ele tinha dificuldade de dizer “não” e se depararam com o histórico de falta de oportunidades que afeta muitos afrodescendentes – por ser negro, era como se ele não tivesse o direito a dizer não. Ubiraci ajudou o mentorado a ver que seu principal valor era a família e que, com a promoção, teria menos tempo com ela. Assim, ele conseguiu educadamente recusar a oferta.



