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Não existem negócios sem planeta

Por top2you

Segundo uma pesquisa realizada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) e pela startup Humanizadas, 87% das empresas atuam no âmbito da sustentabilidade e 59% incorporam o tema à estratégia corporativa

Apesar da adesão crescente à agenda, 71% das organizações ainda não reduzem nem compensam suas emissões de carbono. Além disso, biodiversidade e mudanças climáticas permanecem como prioridades secundárias

Ou seja, muitas companhias já entenderam que precisam falar sobre sustentabilidade, mas ainda não colocaram o tema no centro das decisões que mais pesam para o futuro do negócio.

Para Ricardo Ramos, C-Level de operações, planejamento, RH e transformação digital e mentor da Top2You, essa distância entre intenção e prática mostra que “sustentabilidade continua periférica quando a empresa ainda não entendeu que ela deixou de ser uma pauta de imagem. Ela passou a ser uma pauta de sobrevivência estratégica”.

Essa é a virada mais importante da discussão. 

Não existem negócios sem um planeta saudável porque não existe crescimento desconectado dos recursos, das condições climáticas e das pessoas que tornam o futuro possível.

O planeta entrou na conta

Durante muito tempo, a sustentabilidade foi tratada como uma espécie de camada diferente do negócio. 

Primeiro vinha a estratégia. Depois, a comunicação do impacto. Primeiro vinham as metas financeiras. Depois, os compromissos públicos. Primeiro vinha a busca por eficiência. Depois, a compensação dos danos.

Essa ordem está sendo pressionada pela realidade.

A crise climática já interfere em custos, produtividade, abastecimento, infraestrutura, saúde e planejamento de longo prazo. Novas regulações mudam critérios de conformidade. Consumidores e talentos questionam incoerências. 

Ricardo reforça: “a questão central não é mais se sustentabilidade impacta os negócios. Impacta. A pergunta agora é se a empresa vai tratar esse impacto de forma estratégica ou esperar que ele apareça como crise”.

Ainda assim, parte das organizações segue operando no modo reativo. Faz o que é exigido, responde quando pressionada, comunica quando convém e avança apenas até onde a cobrança externa alcança. 

Keyvan Macedo, C-Level em sustentabilidade e inovação e mentor da Top2You, enxerga esse comportamento em organizações que ainda se limitam “a fazer o que elas são obrigadas de compliance”, sem integrar sustentabilidade ao planejamento estratégico.

Esse é um ponto decisivo. Quando a sustentabilidade fica restrita ao mínimo regulatório, ela não transforma a gestão. 

Por outro lado, os mentores defendem que o tema deveria ser parte do acompanhamento contínuo da empresa, assim como são acompanhados receita, margem, despesa, produtividade e risco.

Faz sentido. Afinal, nenhuma organização espera o fim do ano para descobrir se vendeu menos do que previa. Há indicadores, metas, ritos, correções de rota e decisões frequentes. Com sustentabilidade, a maturidade precisa seguir a mesma lógica.

Quando responsabilidade e resultado se encontram

Assumir uma agenda sustentável exige rever fornecedores, processos, critérios de compra, modelos de produção, desperdícios e metas de curto prazo. Não é simples, mas também não é mais opcional.

Empresas têm responsabilidade sobre os impactos que geram: os recursos que consomem, as cadeias que movimentam, as emissões que liberam e o futuro que ajudam a construir.

Além disso, a sustentabilidade também gera valor para o negócio. 

Segundo a pesquisa da Amcham e da Humanizadas, os principais impactos percebidos pelas empresas são fortalecimento da reputação (74%), maior eficiência de recursos (65%), redução de custos (60%) e crescimento da receita (49%).

Ainda assim, a prática exige enfrentar obstáculos. “Sustentabilidade frequentemente cria dilemas: margem agora ou resiliência depois, velocidade ou responsabilidade, eficiência financeira ou impacto socioambiental, pressão do acionista ou licença social para operar”, detalha Ricardo.

Keyvan também chama atenção para a ideia equivocada de que reduzir impacto eleva as despesas. Em muitos casos, ele explica, reduzir emissões, desperdícios ou consumo de recursos melhora a eficiência, protege a margem e abre novas oportunidades. O desafio é que nem todo retorno aparece no curto prazo.

Por isso, sustentabilidade não é apenas uma agenda técnica. É uma agenda de responsabilidade, visão de futuro e maturidade decisória.

Sustentabilidade é um teste de liderança

Para sair da intenção e chegar à prática, a sustentabilidade precisa atravessar toda a organização. “O grande desafio é fazer com que todas as áreas entendam que o tema é uma responsabilidade de todos”, observa Keyvan. Essa mudança começa no topo porque, ele reforça, “a liderança dita o ritmo”.

Preparar líderes para esse contexto demanda visão sistêmica, coragem para lidar com tensões, maturidade para equilibrar curto e longo prazo e capacidade de tomar decisões considerando riscos que nem sempre aparecem de imediato.

A urgência da agenda exige que esse desenvolvimento aconteça com mais velocidade, e a mentoria responde muito bem a esse desafio. Ela ajuda executivos a identificar pontos cegos, questionar modelos mentais e analisar dilemas complexos com quem já enfrentou decisões parecidas.

“A mentoria pode ajudar muito, desde que não seja tratada apenas como espaço de aconselhamento individual, mas como um processo de ampliação de consciência e de leitura sistêmica”, pontua Ricardo.

Além de apoiar decisões pontuais, a mentoria cria uma lógica de desenvolvimento contínuo. Quando líderes têm acesso a mentores para consultar ao longo da jornada, ganham um espaço permanente de troca, reflexão e amadurecimento.

E é por isso que desenvolver lideranças para a sustentabilidade, no final das contas, é investir na própria capacidade da empresa de responder melhor ao presente, antecipar riscos e construir futuro com mais responsabilidade.