Construir uma cultura antirracista se tornou um objetivo presente na agenda de muitas organizações. O que muda, na prática, é a profundidade com que esse compromisso é colocado em ação.
Políticas de diversidade, treinamentos corporativos e grupos de afinidade fazem parte desse movimento. Mas, diante de um desafio tão estrutural, tratar o racismo apenas como um desafio do RH é suficiente?
Nenhuma organização se torna inclusiva apenas cumprindo metas de contratação se, no dia a dia, as pessoas não sabem reconhecer discriminações nem agir diante delas.
O desafio para RH e lideranças começa justamente aí: desenvolver um olhar capaz de identificar aquilo que, por muito tempo, foi tratado como normal.
Inclusão não é um tema pontual
Embora o investimento em diversidade e inclusão tenha crescido nos últimos anos, os indicadores mostram que o racismo continua presente na rotina de boa parte das organizações.
A pesquisa Brand Inclusion Index 2024, realizada com mais de mil brasileiros, revelou que 61% das pessoas pretas e pardas afirmaram ter sofrido discriminação nos 12 meses anteriores ao levantamento. Entre elas, 31% apontaram o ambiente de trabalho como o espaço mais hostil.
A percepção também aparece em um levantamento da CEGOS para a CNN Brasil, que apontou que, em 2022, 75% das empresas brasileiras identificavam o racismo como a principal forma de discriminação no ambiente corporativo.
Se o racismo continua fazendo parte da realidade de muitas organizações, o desafio passa a ser desenvolver pessoas capazes de reconhecê-lo e enfrentá-lo no cotidiano. Como destaca Sandra Barbosa, executiva do mercado financeiro e mentora da Top2You, a mudança de cultura exige continuidade. “É um aprendizado permanente que amplia nossa capacidade de enxergar diferentes perspectivas e construir ambientes onde todas as pessoas possam contribuir plenamente”.
Na prática, esse conhecimento permite enxergar situações que muitas vezes passam despercebidas para quem nunca precisou enfrentá-las.
Do reconhecimento à ação
O letramento racial é o processo de desenvolver repertório e consciência para compreender as relações raciais e reconhecer como o racismo opera na sociedade. Nas empresas, esse aprendizado amplia a capacidade de identificar como ele se manifesta, muitas vezes de forma sutil.
Para gerar mudanças consistentes, esse desenvolvimento deve ser contínuo, combinando formação, revisão de práticas, reflexão sobre vieses e diálogo permanente.
“Muitas pessoas passam a perceber que determinadas atitudes faziam parte de um viés inconsciente ou do racismo estrutural sem nunca terem se dado conta disso”, diz Judite Sousa, diretora de Vendas da Michelin e mentora da Top2You.
Isso porque o racismo nem sempre se manifesta de forma explícita, ele pode aparecer de maneira velada, incorporado a comportamentos que foram naturalizados ao longo do tempo.
“Um olhar de desconfiança, uma piada considerada ‘inofensiva’, comentários sobre cabelo ou a interrupção constante da fala de profissionais negros são práticas que, somadas ao longo do tempo, produzem exclusão e desigualdade”, explica Sandra.
Por isso, essa formação não é uma responsabilidade exclusiva das áreas de diversidade ou das pessoas negras. Ela fortalece a capacidade de toda a organização e da sociedade de construir relações mais justas no cotidiano.
Equidade se constrói
Esse debate, porém, ainda desperta resistência. O estranhamento costuma surgir quando estruturas tradicionais começam a ser questionadas, especialmente em ambientes historicamente homogêneos.
“Tudo que mexe nos privilégios incomoda. Ainda tem uma confusão de achar que a empresa ‘só quer privilegiar’. Mas, para acelerar a equidade, especialmente em cargos de maior visibilidade e poder, esse desconforto vem”, observa Judite.
Nesse espaço, a liderança tem um papel fundamental na criação de um ambiente favorável ao diálogo, em que diferentes perspectivas possam ser compartilhadas e discutidas.
A mentoria é uma ferramenta que pode fortalecer esse processo, ao permitir que lideranças ampliem sua bagagem por meio da troca com profissionais de diferentes trajetórias. Nem toda liderança possui, de imediato, o repertório necessário para conduzir esse tipo de conversa e, muitas vezes, também está em processo de aprendizagem.
Ao entrar em contato com diferentes vivências e perspectivas, a liderança desenvolve mais preparo para promover ambientes verdadeiramente inclusivos.
É esse tipo de troca que promovemos na Top2You. Com o Top2You Access, nosso modelo de mentoria contínua, organizações têm acesso a uma comunidade diversa de lideranças, criando oportunidades permanentes de aprendizado sobre temas que exigem desenvolvimento constante.
Afinal, transformar culturas começa por manter a conversa viva.



