Filho de migrantes que vieram da pequena São Sebastião do Paraíso, em Minas Gerais, para tentar a vida em São Paulo, José Marcos da Silva cresceu em Ermelino Matarazzo, um bairro situado na periferia da zona leste da capital paulista, próximo da divisa com Guarulhos.
O pai de José era operário e a mãe trabalhava como empregada doméstica. “Meu pai só estudou até a terceira série, mas lia muito. Ele sempre me disse que eu poderia perder tudo, mas nunca a vontade de aprender”, diz. “Meu pai foi o meu primeiro mentor”.
Foi essa relação e essa meta que guiaram José Marcos na sua vida profissional e o levaram a exercer cargos de liderança nas consultorias Ernst & Young, BearingPoint e Deloitte ao longo de três décadas nessa área.
Hoje, com a sua própria consultoria, a JMS Consultoria em Gente, ele oferece serviços em gestão de mudanças organizacionais, mentorias e palestras, além do desenvolvimento de lideranças com foco em diversidade e inclusão.
De olho nas oportunidades
A família sempre incentivou o trabalho desde cedo, sendo uma necessidade conciliar emprego com os estudos. Quando fez 14 anos, José foi aconselhado pelo pai a fazer um curso no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).
E seu primeiro emprego como menor aprendiz foi na Cummins Indústrias como ajustador mecânico, na fábrica. Entre os anos 1970 e 1980, ele fez carreira na Cummins. Em 1976, por dominar a datilografia, foi transferido para o Centro de Processamento de Dados da empresa, onde passou a atuar como auxiliar de escritório. Gostando do setor, ele fez um curso técnico em processamento de dados. Foram 14 anos na área, começando como operador de computador até chegar ao cargo de coordenador do centro.
No começo da década de 1990, sua área foi terceirizada para a gigante de tecnologia Electronic Data Systems (EDS) e ele foi transferido para lá como analista de suporte técnico. Nessa época, já com 31 anos, fez a graduação de Administração de Empresas na Universidade Guarulhos.
Formado e trabalhando, um dos seus chefes na EDS, Júlio Sato, disse que ele teria futuro na área de consultoria. A própria EDS estava criando um departamento, e José Marcos resolveu tentar a sorte. Fez entrevista com um diretor e foi testado até em inglês. Ele nunca tinha feito curso e aprendeu o idioma como autodidata, lendo e traduzindo revistas em quadrinhos norte-americanas. Foi elogiado pelo domínio da língua e acabou aprovado.
Sua primeira missão foi viajar para Boston para tirar uma certificação em SAP. Quando voltou ao Brasil, o seu caminho estava claro: era um consultor empresarial. “Foi uma virada de chave”, diz.
Outra aconteceu quando ele foi designado para implementar um sistema na multinacional alemã Basf e ouviu de um gerente que tinha jeito para trabalhar com gestão de mudanças organizacionais, ou change management. Foi assim que começou a sua carreira de 29 anos nesse nicho específico de consultoria.
Depois de sete anos na EDS, ele migrou para o cargo de consultor sênior na Ernst & Young, onde ficou de 1998 a 2003. Nesse período, cursou um MBA em Gestão de Pessoas em Ambiente de Mudanças na Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ).
Passou ainda pela Makeateam, uma empresa de formação de lideranças com sede em Madrid, na Espanha, e pela consultoria BearingPoint, criada a partir da aquisição da consultoria Ernst & Young do Brasil pela KPMG. E, depois, passou pela Deloitte. Por lá, ficou de 2007 até 2023, começando como gerente, passando a gerente sênior, depois gerente sênior especialista e, por fim, diretor.
No final desse período, e já atuando de maneira informal, descobriu que gostava de trabalhar com mentorias e resolveu oferecer o serviço.
Consciência plena
José Marcos especializou-se em mentoria holística, que consiste em desenvolver a consciência plena nos profissionais sobre suas capacidades e desejos. “Gosto de pensar um pouco com a possibilidade de mudança e não ficar naquela coisa de ‘você tem que fazer isso’”, explica.
Sua abordagem busca, em primeiro lugar, uma conexão. Isso é feito ao questionar o mentorado pedindo que ele ou ela conte a sua história de vida. Depois, José Marcos divide um pouco de suas próprias experiências. “Você tem que ouvir mais do que falar e tem que provocar as pessoas para que elas cheguem em determinadas decisões de carreira e de vida”, destaca.
Mentoria inesquecível
Uma mulher negra de 27 anos, que trabalhava na área de gestão de pessoas de uma empresa, foi protagonista de uma das mentorias mais marcantes de José Marcos. Embora estivesse muito preparada, ela reclamava que tinha que lidar constantemente com a pressão de sua mãe, somada às pressões normais do trabalho. Também tinha muitas dúvidas sobre se realmente teria capacidade de suceder sua gerente. Ele mostrou que o discurso da mentorada era uma forma elaborada de autosabotagem. Uma conversa era o suficiente para se entender com a mãe, que só desejava o seu sucesso, e que a gerente já havia confirmado que ela seria a sucessora natural daquele cargo de liderança. “Ao ouvir aquilo, ela se libertou. Hoje ela tem uma consultoria, criou um prêmio anual para homenagear pessoas negras talentosas e está muito feliz”, conta.



