Foi após um debate na escola sobre tipos de sistemas de governo – parlamentarismo ou presidencialismo – que Elaine Palmer, ainda adolescente, tomou a decisão sobre a sua carreira: ela iria fazer Direito. “Senti uma adrenalina boa porque o formato da atividade era uma espécie de julgamento, em que um júri de alunos ia decidir o vencedor. Eu ganhei e fiquei com a vontade de repetir aquela sensação pela vida”, conta. “Só muito mais tarde”, continua, “eu vim a aprender que o bacana não é ganhar de alguém, mas construir soluções junto, em time, orientada por bons propósitos. Acho que eu ainda era muito jovem para entender isso”, reflete.
Elaine fez o curso de Direito na PUC-Rio e se formou em 1992, fazendo uma série de outras especializações. Sua primeira paixão no Direito foi a área societária, assessorando empresas de médio e grande porte. “Eu sempre tive atração pelo universo corporativo, talvez por influência do meu pai, que sempre trabalhou como executivo do setor financeiro.”
Com o tempo, Elaine acabou sendo convidada para integrar o grupo dos sócios-fundadores do BMA Advogados, um escritório que abriu suas portas em 1995, com 12 sócios. Após 25 anos, o escritório contava com mais de 650 integrantes.
Um salto para a gestão
Em 2009, Elaine foi eleita sócia-diretora do escritório, o que, na prática, significou deixar de atuar como advogada para se dedicar exclusivamente à gestão. “A ideia inicial era que eu ficasse dois anos, mas acabei ficando sete na função. Me encantei pela gestão”, afirma. No novo cargo, o desafio não era mais vencer, mas sim realizar projetos em time.
Ao longo dos anos, ela liderou projetos em quase todos os aspectos relevantes da gestão, como rebranding, desenho de programas de incentivos e remuneração, compliance e implantação de universidade corporativa.
Quando perguntada sobre qual projeto lhe trouxe maior satisfação na gestão, ela não hesita: “Fomos um dos primeiros escritórios a ter uma área de responsabilidade social. Foi uma iniciativa muito inovadora naquele momento no Brasil”.
Também foi na gestão que ela se aproximou da sua área atual: a gestão de conflitos organizacionais. Elaine acredita se tratar de uma habilidade essencial para qualquer liderança, que pode e deve ser aprendida. “Tem uma frase atribuída a Karl Weick que eu gosto muito de citar: ‘toda organização é uma rede de conversas’. Se as conversas vão bem, a organização vai bem; se as conversas vão mal, a organização vai mal”.
Mediadora, conselheira e mentora
Em busca de flexibilidade de agenda e liberdade para investir tempo em projetos diversificados, Elaine se desligou do BMA e, desde então, já atuou como investidora anjo de startup de educação empreendedora e fundou a Interseções – Gestão de Conflitos Organizacionais, para levar a gestão de conflitos para dentro das empresas. “Minha alegria é trabalhar no desenvolvimento de pessoas e times e colocar minha experiência a serviço dos outros”.
Elaine é uma pessoa de causas variadas: educação, empregabilidade, consciência nos negócios, justiça social. Não à toa foi conselheira da Junior Achievement-RJ (ONG focada em educação empreendedora) e do Capitalismo Consciente e mediadora voluntária na Defensoria Pública do Rio de Janeiro.
Além disso, desde 2020, é mentora pela Top2You. “Quase 90% das pessoas que me procuram na mentoria estão interessadas em gestão de conflitos; os 10% restantes se interessam por transição de carreira ou temas gerais de liderança”, conta. Segundo ela, é comum a crença de que é possível discutir e resolver problemas de forma objetiva. “A pior forma de se resolver um conflito é tentar definir quem está certo ou errado. É preciso cuidar dos temas escondidos, subjacentes, que, nos ambientes de trabalho, costumam girar em torno de pertencimento, reconhecimento, autoimagem, senso de competência e de realização”, explica.
Ela acredita que seu papel como mentora não é oferecer verdades prontas, mas sim ampliar o repertório de recursos dos mentorados e mentorados, ajudando-os a aplicar esses aprendizados de forma prática em suas jornadas. Ela também se emociona frequentemente com o repertório vivo que nasce da diversidade de pessoas e histórias: “Desde uma que trabalha em uma mina em Carajás ao diretor de um laboratório, eu falo com os perfis mais diversos. Aprendo muito”, conta.
Mentoria inesquecível
Elaine se lembra de um mentorado que, inicialmente, tinha uma expectativa bem objetiva: queria desenvolver certas habilidades para se colocar de uma forma assertiva e influente em um determinado ambiente. Em certo momento da primeira sessão, ele alterou a expressão facial, fez um silêncio e disse “acho que você abriu a minha caixa de Pandora”. Foi bonito acompanhar todo o processo e o desenvolvimento nas sessões seguintes – do desejo de trabalhar uma habilidade, que ele percebia quase como uma questão técnica, até chegarmos a pontos muito mais profundos relacionados com sua própria história de vida. “Isso não é incomum, mas também não acontece todos os dias. Quando acontece, a gente percebe que aportou algo precioso para aquela pessoa e nos enche o coração de gratidão”, diz.



