Otto von Sothen estudou Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e começou a sua carreira trabalhando na C&A. Foi gerente trainee de lojas e depois entrou no setor de compras, entre 1985 e 1989. Saiu de lá para fazer um MBA em Administração pela Kellogg School of Management, da Universidade Northwestern, em Chicago.
Pouco depois, entrou na PepsiCo, uma das duas empresas que marcaram a sua trajetória profissional. Começou nos Estados Unidos, no setor de alimentos da empresa. Foram mais ou menos cinco anos naquele país em posições comerciais e de marketing, como gerente-assistente e gerente de marca.
Ficou por lá até 1995, quando retornou ao Brasil para assumir a diretoria regional de vendas da empresa no Rio de Janeiro. Cuidava do pequeno varejo: aqueles pequenos caminhões e, na época, kombis, que abasteciam padarias, bares e restaurantes. Otto destaca o momento por ter sido a sua primeira experiência de peso como líder, com um time de mais ou menos 70 pessoas.
Na sequência, foi realocado para São Paulo como diretor associado de marketing da PepsiCo. Passou um ano nessa posição e mais de um e meio como diretor de desenvolvimento de clientes. Havia chegado o momento de trocar.
Otto decidiu arriscar e mudar para a Iams Company, uma startup norte-americana de rações premium. Ele ajudou a empresa a começar a operação do zero no Brasil. O negócio, novo, e o cenário econômico instável se mostraram arriscados. “A forte desvalorização cambial em 1999, fez a ração de luxo ficar cara demais. Ela era importada a peso de ouro e, então, todo o negócio ruiu”, lembra.
Oportunidade internacional inesperada
Logo depois, ele foi contratado pela Quaker como diretor comercial e, tempos depois, chegou à diretoria geral da empresa. Ocorre que a Quaker acabou, comprada pela PepsiCo. Otto achou que, por conhecer os dois lados, era a pessoa certa para liderar o novo negócio. Não era a opinião do seu chefe, que preferiu transferi-lo para a Venezuela. “Eu achei que estava indo para a Sibéria”, afirma.
Por lá, ficou cinco anos gerenciando o braço da PepsiCo na região Andina. “Apesar de ter desconfiado, a transferência foi um ‘MBA inacreditável’ para mim”, diz. Ele se lembra especificamente com carinho de um mentor na época, um gestor mexicano, então presidente da PepsiCo para as Américas. “Foi um impacto gigantesco. Eu fui para a Venezuela como um executivo comum, voltei diferente”, admite.
Otto destaca uma história específica. Em uma reunião com centenas de trabalhadores de uma das fábricas, o gestor mexicano falava sobre a importância de todas as pessoas poderem contribuir, já que é o pessoal da linha de frente quem conhece melhor os processos. Nesse momento, um operário pede a palavra e pergunta: “Por que aqui não funciona assim?”. Otto sentiu como se tivesse levado um tapa no rosto. “Eu achava que fazia tudo bem feito, mas estava desperdiçando oportunidades. Depois dessa experiência e da conversa com esse mentor na viagem de volta, eu estava transformado como ser humano e profissional”, conta.
O seu período venezuelano se encerra em 2008, quando ele volta ao Brasil e, finalmente, consegue o cargo que queria: Otto se torna presidente do setor de alimentos da PepsiCo no Brasil. Ele ocupou a posição por três anos. Depois, tem uma rápida passagem pelo mundo de bebidas alcoólicas na britânica Diageo, que cuida de marcas como Johnnie Walker e Smirnoff.
Tubos e conexões
A mudança foi para a Tigre, da qual foi CEO por 11 anos, liderando a expansão internacional da empresa brasileira para os Estados Unidos. Otto se orgulha de ter colocado a empresa nas listas de melhores lugares para se trabalhar e de ter tido os melhores resultados financeiros da sua história entre 2020 e 2022.
Por meio da sua atuação, Otto foi chamado para ser conselheiro da Unicef, para atuar no braço da organização que trabalha para fornecer tratamento de esgoto e de água para crianças e adolescentes. O seu papel é procurar patrocinadores. “Eu faço isso com a maior cara de pau. A Unicef é mais cautelosa, mas os conselheiros não precisam ser”, diz.
Desde que deixou a Tigre, no final de 2024, está em um momento de reflexão. E esse momento abriu espaço para a mentoria, já que era algo que sempre fez com suas equipes na sua carreira. Ele vê inúmeras vantagens no modelo de mentoria externa. “Dentro da organização, tudo fica mais restrito, as pessoas sentem que podem se prejudicar. Quando você é mentor externo, há mais liberdade”, explica.
Mentoria inesquecível
Otto tinha uma diretora financeira que considerava inteligente e capaz, mas que, ao longo da carreira, sempre sentia a necessidade de se mostrar durona. Acreditava que, por ser mulher, precisava ser mais dura e mais eficaz do que os homens para ser respeitada. O seu papel foi tentar fazer com que ela baixasse um pouco a guarda. Entender que poderia ter resultados muito melhores se adotasse uma abordagem mais branda. Tentou passar para ela, uma profissional brilhante do ponto de vista técnico, que havia outros elementos para se tornar uma líder eficaz. “Ela recentemente me agradeceu pelos aprendizados e por ter chamado a atenção dela para coisas que nem sempre são do negócio”, conta.



